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Da discussão nasce a luz?

Texto de Catarina Mota

 

 

Os cegos e o elefante

(história do folclore hindu)

 

Numa cidade da Índia, viviam sete sábios cegos. Como os seus conselhos eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas, recorriam à sua ajuda. Embora fossem amigos, havia uma certa rivalidade entre eles que, de vez em quando, discutiam sobre qual seria o mais sábio.

 

Certa noite, depois de muito conversarem sobre a verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sétimo sábio ficou tão aborrecido, que resolveu ir morar sozinho numa caverna na montanha. Disse aos companheiros:

 

– Somos cegos para que possamos ouvir e entender melhor que as outras pessoas a verdade da vida. E, em vez de aconselhar os necessitados, vocês ficam aí a discutir, como se quisessem ganhar uma competição. Não aguento mais! Vou-me embora.

 

No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante, montado num enorme elefante. Os cegos nunca tinham tocado nesse animal e correram para a rua ao seu encontro.

 

O primeiro sábio,  apalpou a barriga do elefante e declarou:

 

– Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar nos seus músculos e eles não se movem. Parecem paredes!

 

– Que palermice! – disse o segundo sábio, tocando nas presas do elefante. – Este animal é pontiagudo como uma lança, uma arma de guerra!

 

– Ambos se enganam – retorquiu o terceiro sábio, que apertava a tromba do elefante. – Este animal é idêntico a uma serpente. Mas não morde, porque não tem dentes na boca. É uma cobra mansa e macia.

 

– Vocês estão completamente enganados! – gritou o quinto sábio, que mexia nas orelhas do elefante – Este animal não se parece com nenhum outro. Os seus movimentos são bamboleantes, como se o seu corpo fosse uma enorme cortina ambulante…

 

– Vejam só! Todos vocês, mas todos mesmo, estão completamente errados! – irritou-se o sexto sábio, tocando a pequena cauda do elefante – Este animal é como uma rocha, com uma corda presa no corpo. Posso até pendurar-me nele!

 

E assim, ficaram horas debatendo, aos gritos, os seis sábios. Até que o sétimo sábio cego, que agora vivia na montanha, apareceu, conduzido por uma criança. Ouvindo a discussão, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tacteou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou:

 

– É assim que os homens se comportam perante a verdade. Pegam apenas numa parte, pensam que é o todo e continuam tolos!

 

 

Será que da discussão nasce, realmente, a luz? Nem sempre.

 

Discutir, no sentido de reflectir sobre algum assunto, apresentando argumentos que permitam chegar à verdade sobre uma questão é salutar. Mas penso que esta é uma arte que poucos dominam. Algures no meio das discussões, a procura da verdade parece ser substituída pelo desejo de “vencer” o outro, de mostrar que “se eu estou certo, tu estás errado”. Aliás, a maioria das discussões nem sequer começa com o objectivo de apurar alguma verdade!

 

Na maioria das vezes, ouvimos para responder, não para escutar.

 

A identificação com a forma é uma das armadilhas do ego. Se eu me identifico com os meus pensamentos, vou defendê-los a todo o custo. Se alguém não está de acordo com uma ideia minha, sinto isso como algo pessoal, acho que essa pessoa está contra mim. “Ou estás do meu lado, ou estás contra mim”. Para muitos, esta é a realidade e não há meio termo.

 

Quando isto acontece, a única coisa que nasce das discussões são egos ainda mais fortes. Cada pessoa agarrada ao seu pedaço de verdade, reforçando-a cada vez mais, criando resistência à verdade do outro.

 

Saber discutir de forma produtiva obriga a abrirmos mão da nossa verdade, pelo menos por um tempo, para termos espaço para ouvir e assimilar a visão do outro. Saber ouvir, ou melhor, escutar, é outro requisito essencial e nada fácil. Para podermos escutar realmente alguém, temos de silenciar a nossa mente, evitando os seus constantes julgamentos e interpretações. Temos de tentar ver o mundo através dos olhos do outro, para realmente o percebermos. Temos de ter a capacidade de chegar à conclusão de que podemos estar errados!

 

Cada pedaço de verdade é como a peça de um puzzle que, em conjunto com outras peças, forma uma imagem maior. Se eu junto o meu pedaço de verdade com os pedaços de verdade de outras pessoas, então, todos podemos chegar a uma verdade maior. E assim, sim, nasce a luz.

 

 

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A natureza também chora

Texto de Catarina Mota

 

 

Se a tristeza foi criada e se as lágrimas existem, devem ter um propósito maior do que levar-nos a fugir delas. Quando alguém tem vontade de rir, não o esconde. Mas se a vontade é de chorar, a maioria de nós reprime-se para não o mostrar. Ou não chora de todo, ou espera para chorar sozinho.

 

Quando vemos alguém a rir, não achamos que seja estranho, não dizemos que pare de rir. Mas quando a maioria das pessoas vê alguém a chorar, parece ficar constrangido, sem saber o que fazer. E é muito comum dizer logo: “Oh, não chores”.

 

A tristeza é tão natural quanto a alegria. O choro é tão natural quanto o riso. Nada na natureza é permanente. A impermanência é a única grande permanência da vida. O equilíbrio não é estático. Os vários estados emocionais vão-se alternando, exactamente como o verão é seguido pelo outono…

 

Porque queremos apenas mostrar o nosso lado bem disposto, sorridente e guardamos o sofrimento cá dentro? Porque lidamos tão mal com aquilo que sentimos? Porque temos vergonha de manifestar as nossas emoções? Quando foi que deixamos de ser naturais e porquê?

 

Quando tentamos “controlar” as emoções, não estamos a fazer mais que reprimi-las. Se eu estou triste, mas tento escondê-lo e engolir as lágrimas, estou a ocultar a tristeza. Se estou contente e não o mostro, estou a reprimir a alegria. Se estou furiosa, mas escondo a raiva com um sorriso, ainda que, por dentro, esteja a ser corroída por ela, estou a reprimir a raiva.

 

Não sentir uma determinada emoção é uma coisa. Senti-la, mas tentar disfarçá-la, é outra bem diferente. E isto não é saudável, especialmente porque são as emoções “menos saudáveis” que tendemos a reprimir.

 

Porque não queremos “parecer fracos”, engolimos o choro e sofremos em silêncio. Porque queremos parecer “zen”, fingimos que já estamos acima dos simples mortais que ainda sentem raiva, ou ciúme. E assim vamos escondendo, reprimindo, engolindo. Acima de tudo, mentindo a nós próprios. E se é certo o que dizem, que uma mentira, de tantas vezes ser dita, se transforma em verdade, acabamos por acreditar nas mentiras que vivemos.

 

No entanto, como diz Laura Esquivel, “…as emoções não se podem dominar tão facilmente. Ninguém as consegue abolir. Podemos, quando muito, cobri-las com um manto de indiferença e não lhes prestar atenção, mas sem dúvida que elas continuam a afectar-nos por dentro.”

 

Sempre fui extremamente sensível e durante muito tempo, deixei que o mundo me convencesse que isso era uma fraqueza. Sempre fui de riso fácil, mas também sempre me comovi facilmente. Houve muitos momentos em que contive as lágrimas por ver que as pessoas não reagiam bem a elas. Até que percebi que, reprimirmo-nos é fácil, se pensarmos na força que é necessária para nos expormos e mostrarmos a nossa vulnerabilidade, sem medo da reacção dos outros.

 

Temos de ser verdadeiros connosco, reconhecendo o que sentimos (seja o que for) e aceitando. A aceitação é o primeiro passo para a transformação.

 

As situações e as pessoas que surgem  na nossa vida são apenas estímulos que despoletam reações internas. O que sentimos é responsabilidade nossa e “problema” nosso. Não nos compete atirar o nosso “lixo” emocional para cima dos outros. Se tivermos um ataque de raiva, por exemplo, se estivermos com os nervos em franja, não devemos descarregar em cima de outros. Temos que ter consciência de que as emoções são energia que nos impulsiona para a acção. Gastemos, então, esta energia de forma positiva. Podemos canalizá-la para o trabalho ou para executar alguma tarefa que andamos a adiar há algum tempo. Podemos dar uma corrida, fazer uma prática de yoga bem forte, ou limpar a casa. Temos é de mexer! Mexer, dar uma direcção saudável à nossa energia.

 

Aprenda técnicas que o ajudem a aquietar. Pratique yoga e meditação, por exemplo. Aprenda a distanciar-se da sua mente, a observar os seus pensamentos e emoções de forma mais neutra, sem se deixar levar por eles de forma automática, pelos caminhos habituais.

 

Há dias, uma amiga ligou-me num momento de crise. Disse-me que estava quase a ter um ataque de choro e queria perguntar-me se havia alguma técnica que a ajudasse a acabar com aquilo. “Chora”, disse-lhe eu. Não há melhor maneira de pôr fim à vontade de chorar, do que chorar!

 

Se tiver vontade de rir, ria. Se tiver vontade de chorar, chore. Não sinta vergonha de o fazer, mesmo que seja à frente de outras pessoas. E se alguém ficar constrangido, o problema não é seu. Não deixe que o convençam que chorar é mau, que é perda de tempo, ou que é sinal de fraqueza. Há muita gente que, se chorasse, se deitasse cá para fora tudo o que reprime, seria muito mais feliz e saudável. Além disso, se chorar fosse fácil, haveria mais gente a fazê-lo. É necessário ter muita força interior e coragem para mostrar as vulnerabilidades e as fragilidades. Chorar não é sinal de fraqueza, mas sim de uma grande força. Muitos são os que têm coragem para colocar a sua vida em risco a praticar as mais variadas actividades radicais, saltando de precipícios e de aviões, mas não têm coragem para saltar dos seus abismos interiores, que são, sem dúvida, os maiores.

 

 

 

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Simplifiquem e pratiquem

Texto de Catarina Mota

“Esta paixão de alguns anos não esmorece com o tempo. Pelo contrário, renova-se a cada dia! Com o yoga tem sido assim. A cada dia que passa, a cada prática, sinto-me cada vez mais abençoada por ter conhecido este caminho.” É assim que a Catarina começa este seu novo artigo, em que nos fala da importância de transformar a teoria em prática.

 

 

Esta paixão de alguns anos não esmorece com o tempo. Pelo contrário, renova-se a cada dia! Com o yoga tem sido assim. A cada dia que passa, a cada prática, sinto-me cada vez mais abençoada por ter conhecido este caminho.

 

Por vezes, é quando estamos mais na “mó de baixo”, quando mais precisamos de fazer algo por nós, que temos menos vontade de praticar. Isso acontece comigo e vejo-o acontecer com muitas outras pessoas. Se estamos tristes, em vez de ouvirmos música alegre, procuramos música que ainda nos põe mais tristes. Em vez de tentarmos pensar em coisas alegres, tendemos a pensar em tudo que de menos bom já nos aconteceu na vida e sentimo-nos uns “coitadinhos”. Em vez de nos pormos a mexer, deixamo-nos dominar pela inércia, pela falta de vontade, que só nos levam cada vez mais para baixo. Quando mais precisamos de fazer umas boas práticas para arrumar a confusão interna, é quando menos praticamos. Num ou noutro momento, penso que isto já aconteceu com todos. Parece que há algo em nós que se alimenta das nossas emoções mais densas e até fica contente quando estamos tudo, menos contentes. De que nos serve acumular ferramentas, se não as usarmos?

 

Aprender é bom. Mas, em algum momento, vamos ter de escolher um caminho e seguir em frente sem olhar para trás. Se assim não for, tudo o que aprendemos para o nosso auto-conhecimento e desenvolvimento não passa de teoria. Não sai do domínio mental, nunca chega a transformar-se em verdadeiro conhecimento, pois não é praticado.

 

Num dado momento da vida, tive de travar a minha curiosidade. Sempre fui “cusca”, gosto de aprender sobre isto e sobre aquilo… Mas percebi que, tantas ferramentas dentro da mochila só estavam a pesar e a abrandar o meu passo. Nestes últimos anos, em vez de acumular, dediquei-me a libertar pesos desnecessários.

 

Experimentem tudo o que quiserem até perceberem por onde querem avançar. Mas, uma vez descoberto o vosso caminho, sigam-no sem distracções. Não queiram fazer tudo ao mesmo tempo, não queiram explorar tudo e mais alguma coisa, porque este é um caminho que não leva a lado nenhum. Parece que andamos a fazer muito, mas não saímos do lugar. Simplifiquem…

 

Lembrem-se, seja yoga, ou outro caminho qualquer, o que importa é passar da teoria para a prática. Integrar as vivências na vida do dia a dia. Pratiquem, porque só assim verão os resultados. E quando menos vos apetecer praticar, lembrem-se que, provavelmente, é quando mais precisam.

 

 

 

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Resoluções de ano novo

Texto de Catarina Mota

Resoluções de ano novo fazem parte da tradição da maioria. Queremos aproveitar o impulso de um novo ciclo para, finalmente, concretizarmos alguns dos nossos objectivos. No entanto, as nossas intenções parecem não durar muito tempo e acabamos por cair nos mesmos hábitos e percorrer os caminhos mais percorridos. 

 

 

O início de um novo ano é momento de celebração.  Juntamo-nos com a família e amigos para a contagem decrescente dos últimos segundos do ano que acaba e desejamos a todos “um feliz ano novo”. Dizemos “que o ano novo traga tudo o que desejas” e lembramos a todos que devem entrar o ano com o pé direito.

 

São muitas as tradições que marcam o início de um novo ciclo: fazer oferendas a Iemanjá, usar roupa branca, comer doze passas com as doze badaladas da meia noite, usar lingerie colorida, pular sete ondas, entre outras. Todas elas oferecem a promessa de atraírem sorte, abundância, amor, saúde e tudo o que de bom desejamos para o ano que se inicia.

 

Guardamos para o novo ano tudo aquilo que andamos a empurrar com a barriga há imenso tempo, seja deixar de fumar, ir ao ginásio, fazer yoga, fazer dieta, etc. Agora é que vai ser! No entanto, como sabemos por experiência própria, a maior parte destas resoluções não dura muito tempo. Porque será?

 

A verdade é que não é difícil adoptar novos hábitos, difícil é cortar com os velhos. Fazer mudanças na nossa vida e evoluir para algo novo nem sempre é fácil. Muitas vezes parece que só mudamos à força, ou seja, quando a vida nos prega uma rasteira, nos tira o tapete e nos obriga a olhar com outros olhos para o que temos andado a fazer com ela.

 

Para plantarmos sementes, temos de escolher um solo fértil. As nossas resoluções são como sementes, que têm de ser plantadas quando a mente está serena e num estado receptivo. Se o fazemos num plano apenas intelectual, que é o que normalmente acontece, raramente traz resultados.

 

Para ter êxito, a resolução deve ser plantada com bastante intenção e força de vontade. Somos parte de uma campo energético que encerra em si todas as possibilidades e que responde tanto ao que pensamos, quanto ao que sentimos. Por isso mesmo, pensamentos e sentimentos têm de estar em sintonia, seguir a mesma direcção. Precisamos de uma intenção consciente, manifestada num pensamento claro e o coração aberto com uma emoção elevada. Ou seja, a realidade responde não ao que desejamos, mas ao que somos, ao tipo de energia que irradiamos.

 

Os mesmos pensamentos e os mesmos sentimentos vão criar mais do mesmo. Vão perpetuar a mesma realidade. É importante elevarmo-nos acima das circunstâncias externas e imaginarmos um novo desfecho para as situações da nossa vida. Ou seja, de nada adianta desejar e pensar em abundância, se no fundo, no fundo, nos sentimos pobres. De nada adianta pensar numa vida afectiva preenchida, num relacionamento amoroso maravilhoso, se no fundo, no fundo, não acreditamos que isso seja possível. Não funciona pensar numa direcção e sentir noutra completamente diferente.

 

A realidade é construída a partir do interior. A mudança só pode vir de dentro e exige coerência entre o que pensamos e sentimos.

 

Não precisa esperar pelo início de um novo ano para fazer resoluções. Pode plantar as sementes da mudança em qualquer altura, desde que esteja a sentir que é o momento certo. Mas antes de o fazer, lembre-se do seguinte:

– Não deixe que o exterior defina quem é, ou o que sente e pensa. Eleve-se acima das circunstâncias externas e crie pensamentos e sentimentos que sejam coerentes com aquilo que deseja, não com aquilo que tem. Se quer algo diferente, tem de fazer algo diferente. Os mesmos caminhos não levam a diferentes destinos.

 

– Não se preocupe com o “como”, não se preocupe com os detalhes. Deixe que a vida se encarregue disso. Faça apenas a sua parte, que é grande e é a mais importante. Defina a sua intenção com clareza e acredite. Confie. Sinta a realidade que deseja como algo que já existe. Algo que é real. SINTA. Crie a sua realidade internamente. Com convicção, determinação e confiança.

 

Pratique a gratidão. E não seja grato apenas por aquilo que já tem. Não agradeça apenas por algo que já aconteceu. Simplesmente, pratique a gratidão na sua vida. Confie na vida e sinta-se grato pelo que tem e por aquilo que ainda há-de ter, por aquilo que já aconteceu e por tudo o que acredita que ainda vai acontecer.

 

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O corpo – porta para outra realidade

Texto de Catarina Mota

Um texto muito pessoal da Catarina, que partilha connosco um pouco dos seus primeiros anos de prática de yoga.

 

 

Não sou daquelas pessoas que fixam datas e sabem exactamente quando começaram a praticar yoga, por exemplo. Eu sei que comecei algures nos meus dezassete anos, porque foi com essa idade que, pela primeira vez na vida, me inscrevi num ginásio e foi lá que conheci aquele que viria a ser o meu primeiro professor de yoga.

 

Lembro-me que fiz umas aulas em que o yoga, para mim,  não passava de exercício físico. Alongamentos que me custavam imenso a fazer e me levaram a pensar que talvez eu tivesse nascido com as vértebras fundidas umas nas outras, tal era a rigidez…

 

Assim comecei. A praticar uma vez por semana, depois duas…até que acabei por praticar de segunda a sábado.

 

As aulas que eu tinha, na altura, eram extremamente físicas. Aliás, nesses primeiros três anos, aproximadamente, asana era tudo o que fazíamos. Só mais tarde fui apresentada à prática de pranayama, mantra, meditação… No entanto, o que começou por ser uma aula de exercícios físicos diferentes dos que eu fazia no ginásio, acabou por ser muito mais. Comecei a sentir coisas como nenhuma outra actividade me tinha feito sentir. Sem saber muito bem o que me estava a acontecer e, muito menos, como estava a acontecer, eu estava a mudar. E a mudança era cá dentro.

 

Ainda hoje é difícil explicar este processo de transformação interior que o yoga traz à nossa vida. Só sabia que estava diferente. Via a vida de forma diferente. Pensava, sentia e agia de forma diferente.

 

As aulas, por vezes, tinham hora para começar mas não tinham hora para acabar. O meu professor era muito exigente. Era levada ao extremo, forçada a enfrentar e ultrapassar os meus limites.

 

A verdade é que, através do corpo, fui-me apercebendo que existia em mim uma força imensa. E que eu só precisava tomar consciência e aprender a chegar a ela. Foi-se tornando óbvio, também, que essa força não era “física”. A força do corpo rapidamente se esgotava com a exigência das práticas. Era algo maior. Mais subtil mas muito mais forte!

 

Quando as aulas acabavam eu estava corada, cabelos desalinhados, toda suada, mas de cabeça e peito bem erguidos, com uma incrível sensação de força. Naqueles momentos, sentia que não havia nada que não conseguisse fazer na vida.

 

Tudo isto começou pelo corpo, a porta para uma outra realidade…

 

Descobri um outro “eu”, para além daquele que tinha conhecido e sido até então. Comecei a ver-me com outros olhos. Com os meus olhos! Comecei a ver-me como eu era, não como os outros me tinham convencido que eu era.

 

Yoga. E como poderia a vida continuar a ser a mesma?

 

 

 

 

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Yoga na escola

Texto de Julita Figueiredo

Julita Figueiredo é professora do ensino básico desde 2000. Após três anos de Formação em Yoga na Educação (R.Y.E) e um estágio internacional R.Y.E. em França, começou a aplicar técnicas específicas de Yoga voltadas para a Educação no contexto sala de aula.

 

 

A prática de yoga é para mim muito importante e uma paixão. Aprendi a sentir, usufruir do yoga e a agradecer todos os benefícios que a minha prática pessoal me tem trazido. Sou professora do Ensino Básico há 15 anos e pratico yoga para aí há metade desses. Gosto de ensinar e aprender com as crianças e, apesar da tarefa profissional ensino/aprendizagem se ter vindo a complicar nos últimos tempos, com as “minhas crianças” ensinei e aprendi a valorizar e cultivar um espaço de partilha, onde nos sentimos bem. Aprendi a usar técnicas de yoga na sala de aula e, a partir do momento em que as apliquei, nada voltou a ser como antes. Não consigo estar na sala de aula sem as usar.

 

Hoje em dia, sabemos bem como as crianças estão rodeadas de excesso de estímulos, com um horror de horas nas escolas e ATLs, a serem pressionadas para serem as melhores nesta ou naquela área, com falta de autoconfiança, falta de tempo para estar em contacto com a natureza, falta de tempo com os pais… a sentirem o acelerar das suas vidas, sem nada poderem ou saberem fazer para parar um pouco e, simplesmente, sentir.

 

Eu e quase todos os professores que conheço, falam da falta de concentração, da indisciplina e da falta de autoconfiança, como sendo dificuldades que atrapalham um bom desempenho escolar dos nossos alunos. Estas técnicas sobre as quais aqui escrevo, são exercícios simples de relaxamento e respiração usados no yoga e adaptados para crianças no contexto da sala de aula.  Para mim, são como uma alternativa metodológica que uso, a fim de enfrentar todas estas dificuldades no ensino e todo este mal estar sentido, que hoje em dia impede as crianças de serem “apenas” crianças e as rotula de “crianças problema”, hiper activas, hipo activas, mal comportadas, etc.

 

Em primeiro lugar, acho essencial que as crianças sintam que pertencem a um grupo e que se sintam bem e “encaixadas”. Viver o espírito de equipa é fundamental!

 

É como se estivéssemos todos em alto mar, a navegar no mesmo barco e este só pudesse seguir viagem com o trabalho e a força do grupo: içar velas, remar, segurar o leme… Todos são indispensáveis nesta viagem e só com a ajuda de todos, podemos seguir em frente. Sempre que exista um problema com algum trabalho no barco, todos os membros do grupo estão por perto para ajudar. E, seguindo assim, com este e muitos outros exercícios de partilha, vai-se desenvolvendo o espírito de responsabilidade perante um grupo. Noto que quando se cultiva este espírito de entreajuda, a turma fica mais coesa e todos estão mais atentos às necessidades dos colegas. Este espírito de “Viver Juntos”, como lhe costumamos chamar, precisa da constante vigilância do “Capitão do Navio”, o professor, que observa o estado de ânimo da sua tripulação.

 

É importante também “Limpar a Casa” de pensamentos negativos. Vamos cultivando o “pensar de forma positiva”. Tal como os adultos, tenho observado que as crianças que estão habituadas a pensar positivo, são mais calmas e livres de medos e angústias. É contagiante o pensamento positivo. Mesmo crianças que inicialmente não o conseguem fazer, por estarem, rodeadas do contrário, quando se habituam a ouvir e a ver palavras e gestos positivos, começam a fazer o mesmo. Para elas é tão fácil imitar os adultos! Que o façam sempre pela positiva! Frequentemente, fazemos exercícios de visualização, em que elas se imaginam a conseguir as suas pequenas conquistas, a sentirem-se bem, em paz, seguras.

 

Por vezes, são histórias simples, exemplos do quotidiano, gestos de colegas… Enfim, tudo vale quando a intenção é desbloquear, abrir, irrigar o cérebro. Seguir o lema “Eu Consigo” e deixar as palavras contrárias (não consigo), que são proibidas, fora da sala de aula. E quando algo, seja uma matéria, um exercício de matemática, uma questão do texto, etc, lhes complicar a vida, surgem as respostas: Vou tentar – tento outra vez – consegui – vou pedir ajuda.

 

Depois de eliminarmos todas estas toxinas e pensamentos não tão positivos, preocupamo-nos então com a postura! Sentados nas cadeiras, ou em pé, é importante cuidar da nossa “Árvore da Vida”, a nossa coluna. Terminada uma tarefa e permanecendo sentados, colocamos as mãos atrás da nuca! Simples, verdade? E esse gesto torna-se num código que me permite saber quem termina a tarefa, além de os manter uns segundinhos ocupados a respirar fundo e a sentirem-se bem. Também podemos usar a personagem de um texto que, por acaso, é uma árvore, aproveitar para fazer uma pausa e colocarmo-nos ao lado das mesas, de pé. Esticar os nossos ramos, baloiçá-los para a direita e esquerda, para a frente e para trás… Tão bom sentir o nosso corpo a esticar quando já tínhamos estado um bom bocado sentados! É só puxar pela imaginação e, num piscar de olhos, a coluna está direita, a autoconfiança estimulada, movimentação do diafragma melhorou e, por consequência, uma melhor oxigenação de todo o corpo. Tão bom e fácil ter este cuidado!

 

Ainda através de exercícios de relaxamento e de respiração, a criança aprende a controlar a sua agitação e a conseguir ouvir melhor o que lhe é transmitido. Usando exercícios respiratórios simples, reparo que não só se consegue acalmar as crianças, como também energizar, conforme a actividade que se se pretenda fazer a seguir. Por exemplo, depois de um intervalo em que os alunos lancharam, correram, riram, cantaram, conversaram, entra na sala apenas o corpo da criança, enquanto a sua mente ainda está lá fora no recreio, a pensar no quanto se divertiu a saltar à corda. Neste momento, podemos usar um respiratório simples, como por exemplo: sentados nas cadeiras, com as costas direitas, respirar fundo e colocar as mãos na barriga, inspirando e expirando, acalmando a respiração; continuando a respirar fundo, levar depois as mãos às costelas e depois até ao peito, respirando cada vez mais calma e profundamente. Se queremos energizar, podemos aliar a respiração a gestos. Por exemplo: sentados nas cadeiras com os braços esticados, punhos fechados com força, inspiram e expiram soltando e abrindo as mãos. Respirar bem, ter calma. Quando experimentamos essas sensações, somos invadidos por um profundo bem estar. E não é assim que devem sentir-se as crianças quando estão na sala de aula a aprender? Será que conseguem aprender de outra forma? Talvez, mas não tão bem…

 

Usar momentos de pausa é para mim essencial. Se nós concedermos pequenas pausas no tempo pedagógico, permitimos que as crianças processem a informação que lhes demos. Esse tempo que “perdemos” em pausa, será ganho em maior atenção e disponibilidade para o que vem a seguir. Relaxamento, que pode ser feito, simplesmente, fechando os olhos por uns instantes e escutando uma suave melodia. Permitimos assim ao cérebro assimilar as informações recebidas anteriormente. Aproveitamos também para recarregar baterias, descansando!

 

Por fim a concentração! Constantemente, os professores chamam a atenção, ou até mesmo repreendem, alunos por não estarem atentos. Mas será que as crianças foram ensinadas a concentrar? Em primeiro lugar, a mente deve estar calma para depois, como um raio laser, focar apenas no que é pretendido. Depois, damos espaço à mente para reproduzir interiormente todas as sensações e conceitos. Sermos capazes de prestar atenção, escutar para reter o que devemos guardar na cabeça. Na sala de aula, treinamos exercícios simples com imagens ou sons, nos quais a criança, depois de ver uma imagem ou escutar um som por alguns minutos, fecha os olhos guardando o que foi visto ou ouvido. Após lhe termos dado tempo para assimilar, ela descreve o que viu ou ouviu.

 

Estes exemplos são alguns que me ocorreram, mas muitos outros podem e devem ser feitos, pois as crianças gostam de surpresas e novidades. Como já referi, não consigo ensinar sem usar estas técnicas de yoga. Podia fazê-lo? Certamente que sim, mas não seríamos tão felizes!

 

 

 

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Quanto maior a construção, mais fortes os alicerces

Texto de Catarina Mota

 

Um dia destes, numa aula, saiu-me esta frase: “Quanto maior a construção, mais fortes têm de ser os alicerces”.

 

Bem, não sou perita em construção, não sei se assim é, mas faz sentido.

 

Para quem faz aulas comigo regularmente, já deve ter reparado que há um certo número de posturas em que insisto particularmente. Não só as fazemos muitas vezes, como também dedico aulas à sua correcção ao pormenor. Apesar de serem exercícios familiares, há sempre coisas a corrigir.

 

Não faço isso por acaso. Não insisto em certos asanas por não conhecer mais. A razão para os fazer regularmente, tanto nas minhas práticas pessoais, quanto nas aulas que dou, é por considerá-los alicerces.

 

São asanas que ajudam a construir as bases. Fortalecem o corpo em geral, aumentam a flexibilidade, dão-nos uma boa consciência do corpo e, sem darmos por isso, vão abrindo caminho para outros mais avançados.

 

A bem da “diversão”, poderia variar muito mais nos exercícios que escolho. Mas o yoga não é para divertir.

 

Seria muito fácil para mim fazer aulas mais acrobáticas, daquelas que enchem bem os olhos de quem vê. No entanto, eu ficaria a fazer as aulas sozinha ou com meia dúzia de pessoas que  talvez conseguissem acompanhar. E os restantes ficariam desmoralizados, a pensar que o yoga não é para eles.

 

Mais flexíveis ou menos, mais fortes ou menos, todos precisam de bases sólidas e de confiança para poderem progredir. E quanto mais longe estiverem dispostos a ir, mais importante é a criação de alicerces seguros.

 

Chamo a este grupo de posturas, asanas básicos. Básicos não no sentido de serem fáceis, até porque apesar de relativamente simples, se os queremos fazer com o máximo de rigor, não são assim tão fáceis. São básicos no sentido de nos ajudarem a construir as nossas bases.

 

É o caso, por exemplo, do  Utthita Trikonasana, Prasarita Padottanasana, Utthita Parsvakonasana, etc.

 

Estou contente com os resultados. Gosto de ver como todos têm evoluído a nível de força e de flexibilidade.

 

Esquecemo-nos, muitas vezes, de olhar para o caminho que já percorremos e ficarmos contentes com o que já conquistamos. Temos tendência a focar a atenção naquilo que ainda não conseguimos fazer, naquilo que ainda temos dificuldade, em vez de olharmos para tudo o que já avançamos.

 

Devagar se vai ao longe e é bom quando não temos pressa. Vamos andando, pelo simples prazer de andar. Aprendendo com cada passo. Crescendo ao longo da viagem. Meta? A meta é caminhar. Onde chegamos? Isso importa assim tanto? O importante é o que vamos aprendendo no percurso.

 

Praticando com regularidade, respeitando os nossos limites do momento, usando o bom senso e todos chegarão longe. Sem pressa.

 

 

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E a vida vai andando

Texto de Catarina Mota

 

E a vida vai andando. Embrenhados nas nossas rotinas do quotidiano, os dias vão-se sucedendo, um após o outro. Passam a voar, como muitas vezes dizemos. Quando alguém nos pergunta se há novidades, respondemos que “novidades, só no Continente!”. Até que um dia…

 

Um dia, a vida decide pregar-nos uma partida, por-nos à prova, colocando-nos perante alguma situação que nos faz balançar, que abana com a nossa vida tão estruturada, que desafia a nossa mente tão cheia de certezas. Acontece com muitos de nós, senão mesmo com todos.

 

Foi o que aconteceu com uma aluna e amiga minha recentemente. Após uma consulta médica, soube que as “dorzitas” que andava a sentir nas costas, deviam-se a um problema grave de coluna. Segundo o médico, durante um tempo (ainda indeterminado, mas que se prevê longo…), não pode flectir a coluna para trás, nem para a frente, muito menos fazer torções. Foi com muita tristeza que ela me disse que não podia mais fazer yoga…Pediu-me que a deixasse assistir às aulas, sentadinha, de olhos fechados, porque lhe fazia muita falta. “Claro que sim”, respondi eu! Aproveitei para lhe lembrar que ela podia continuar a praticar yoga, quando muito, não podia era praticar asana e que, neste momento, precisava mais viver o yoga, do que praticá-lo na sala de aula.

 

Isto fez-me reflectir sobre o que é viver o yoga.

 

Quando me perguntam o que é o yoga, a primeira coisa em que penso é que yoga é viver de forma mais consciente. É manter o centro, a serenidade, independentemente das circunstâncias. Ter uma atitude de contentamento, escolhendo estar bem, independentemente do exterior. Trabalhar a aceitação do que cada momento traz, acreditando que existe um plano maior do qual todos fazemos parte e que podemos nem sempre ter o que queremos, mas sempre temos o que precisamos para crescer.

 

Aceitar o que não podemos mudar. Esse é o passo principal para a transformação. Sermos mais como os nossos mestres cães, que estão no aqui e agora. Enquanto escrevo, as minhas patudas não estão chateadas a pensar que queriam estar na praia, em vez de estarem em casa. Quando vão à praia, aproveitam ao máximo, mas fazem o mesmo quando estão em casa. Aproveitam o melhor de cada momento.

 

Nós, humanos, sofremos porque as coisas não são como queríamos que fossem, não aproveitamos as pequenas coisas, os prazeres simples, as bençãos que nos são dadas a cada instante. Por isso, há que aprender a aquietar a mente, aceitar o momento, tirar o máximo de cada instante, vivendo da melhor forma com o que temos, lembrando que não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe, como dizia a minha avó. Relaxar e entregar. Deixar fluir. Dançar conforme a música do momento. Elevarmos os nossos pensamentos e emoções acima das circunstâncias. Fazer as pazes com o fluxo da vida, relaxar e confiar. Não tentar sequer controlar o que não controlamos. Controlar apenas o que podemos controlar: nós próprios e a nossa reacção perante as coisas.

 

Tudo isto para mim é yoga na vida.

 

 

 

 

 

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