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7 Dicas para quem está a começar no yoga

7 Dicas para quem está a começar no yoga

 

Se estás a ler este artigo, é possível que estejas a dar os teus primeiros passos no yoga. Começar a praticar é uma experiência incrivelmente gratificante, mas também pode ser um pouco intimidante para os iniciantes. Não te preocupes – estou aqui para te ajudar nesta viagem, compartilhando algumas dicas valiosas que te irão ajudar a tirar melhor partido da tua prática.

 

 

Respeita o teu corpo

Permanece atento aos sinais que o teu corpo te dá durante a prática. Não forces além dos teus limites e adapta as posturas conforme necessário para se adequarem às tuas necessidades e capacidades de cada momento.

 

Concentra-te na respiração

A respiração é fundamental no yoga. Faz da respiração a tua prioridade ao longo da prática. Sempre que sentires dificuldade em controlar a respiração, descansa um pouco até que o teu ritmo respiratório e cardíaco estejam normais.

 

Começa com aulas para iniciantes

Se és novo no yoga, é recomendável começares com aulas para iniciantes. Isso permitirá que aprendas as bases corretamente e evites lesões.

 

Usa os acessórios apropriados

Se necessário, utiliza acessórios como blocos, cintos e almofadas nas posturas. Eles podem ser úteis para alcançar uma maior estabilidade e conforto.

 

Pratica regularmente

Para colher os benefícios do yoga, é importante praticar regularmente. Mesmo que seja apenas por alguns minutos todos os dias, manter uma prática consistente ajudará a desenvolver força, flexibilidade e equilíbrio ao longo do tempo.

 

 

Mantém a mente aberta

Experimenta diferentes estilos de yoga e abordagens. Cada um de nós é único e o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para outra. Mantém uma mente aberta e disposta a explorar o que ressoa melhor contigo.

 

Sem expectativas

Não tenhas expectativas de conseguir, nos primeiros tempos, a execução perfeita das técnicas. Para a maioria dos exercícios é necessário um período de prática regular, que pode ir de alguns dias, a várias semanas ou meses. Algumas técnicas demoram mesmo alguns anos a aperfeiçoar.

 

Não te compares com ninguém

Uma das armadilhas mais comuns para os praticantes de yoga em geral é a tendência de se compararem aos outros. Cada corpo é único e cada pessoa tem o seu processo individual. Comparares-te com os outros pode levar a sentimentos de inadequação e desmotivação. Lembra-te que o yoga vai muito para além do que fazes com o teu corpo.

 

Sê paciente contigo 

O yoga é um caminho, não um destino. Lembra-te e aceita que o progresso é gradual e que haverá altos e baixos. Sê gentil contigo mesmo e celebra cada pequena conquista.

 

 

 

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O valor da verdade

O valor da verdade

Texto de Paulo Vieira

 

Nas aulas de Vedānta e também nas aulas de Yoga, mais cedo ou mais tarde, encontrarás a palavra satyam, que significa honestidade. A honestidade é um valor a ser seguido diligentemente por todos os buscadores da Verdade, pois ela é o meio e o fim. Como conseguirá um buscador descobrir a verdade última de todas as coisas levando uma vida de mentira e falsidade?! Não é possível.

 

Dito isto, dizem os grandes mestres da nossa tradição que a prática da honestidade ou verdade, é um meio indireto para o conhecimento da Verdade. Por outras palavras, é uma porta que se abre para poderes seguir o caminho espiritual, o caminho da compreensão da realidade última de todas as coisas chamada Verdade. A verdade relativa, que é a que pomos em prática como um valor para seguir, é o meio indireto para alcançar a verdade absoluta, chamada em Sânscrito, também Satyam ou Sat, existência.

 

Assim como qualquer outro valor, como por exemplo, ahiṁsā, a não-violência, também satya, honestidade, contribui para o fortalecimento do carácter espiritual quando seguida com determinação e coragem pelo praticante. Sim, é preciso coragem para seguir o caminho da verdade, pois é necessário ser-se verdadeiro, o que, definitivamente, nos coloca em posições de muita vulnerabilidade, uma vez que ficamos expostos. Coragem será, então, neste contexto, a força e a determinação para se ser vulnerável perante a exposição e manter a honestidade em todas as nossas interações.

 

O caminho da verdade começa aqui e agora, aliás, já começou se estás a ler estas palavras. Quando olhas para ti com honestidade, quando falas de ti com honestidade, quando falas com os outros honestamente, estás a seguir esse caminho nobre. Há que respirar honestidade para se ser honesto, assim como há que respirar ar para se estar vivo, porque a vida espiritual depende da respiração do ar da honestidade.

 

A mentira é como uma sala abafada, sem oxigénio, viciada pelas angústias mofentas do ego que pretende passar uma falsa imagem de si para ser visto como importante. Abre as janelas do teu ser, sê transparente, deixa o ar entrar e purificar a tua mente. A verdade purifica, liberta a vergonha que se entranha nas paredes viscosas da mente, que aprisionam e condicionam, retirando-te a capacidade de viver espontaneamente, livre como uma criança.

 

Valorizar a verdade implica necessariamente o entendimento profundo da enorme perda causada pela mentira, pela falsidade e, simultaneamente, também implica o entendimento igualmente profundo do irreversível dano causado pela mentira.

 

O que se ganha com a mentira? Ganha-se ser mentiroso, o que obviamente não é desejável nem louvável e incorre em demérito próprio, destruindo um dos alicerces mais bonitos das relações humanas – a confiança. A confiança é nutrida com a verdade. A desconfiança é nutrida com a mentira. Estas são as regras do jogo.

 

Quando alguém é o recipiente da mentira de outro – sendo o mentiroso mais fácil de apanhar do que um coxo – mais cedo ou mais tarde, a mentira virá ao de cima. Quando a mentira vem ao de cima, uma e outra vez e rotulamos o outro de mentiroso por força das circunstâncias, então nessa altura nefasta e negra, a confiança, que demorou anos para ser construída e na qual assentou toda uma vida de relacionamento abençoado, vai abaixo, fica despedaçada em mil cacos, como um cristal de estimação que cai num passeio de rua sujo do calcar das pessoas.

 

A verdadeira vítima da mentira é o mentiroso que perde a credibilidade, o valor, a dignidade, os amigos e os amores. O alvo da mentira – porque a mentira é uma seta que também corrói aqueles que levam com ela – fica triste, dececionado, irritado, incrédulo, desconfiado e lamenta muito. Pode até ficar traumatizado e ganhar pistantrofobia – a fobia ou o medo irracional de confiar novamente nas pessoas. Fica clarissimo para todos, mesmo para aqueles que ainda estão ensonados, que mentir gera sofrimento e que é, sem dúvida nenhuma, uma forma de hiṁsā, violência.

 

Ninguém quer ter um amigo mentiroso, ninguém quer ter um pai ou uma mãe mentirosa, ninguém quer ter um companheiro ou companheira mentirosa. Todos esperam a verdade, até quando perguntam as horas ou por orientação. Todos querem a verdade quando lhe colocam uma pergunta, assim nos diz o senso comum. Se deseja a verdade, ofereça a verdade.

 

O ganho conferido pela verdade é a integridade. A mente pensa a verdade, a boca diz a verdade e as ações são a extensão dessa verdade. A pessoa fica inteira porque confia no seu potencial de vulnerabilidade e coragem. Aquele que mente obviamente esconde a sua fragilidade. A razão para isso pode ser o medo, a vergonha ou até segundas intenções. A razão é importante, claro, quando se tenta resolver problemas psicológicos e crescer emocionalmente, porém, mais importante é notar que a pessoa que mente fica dividida. Uma parte da pessoa quer mentir e mente, a outra parte, sabendo que mentir é errado, assiste passivamente, sendo incapaz de travar a mentira. De cada vez que se mente aumenta-se a divisão interna e a cada mentira mais e mais a pessoa fica dividida. Esta pessoa dividida acabará por deixar de confiar em si mesma, porque a força interna da verdade que assiste às mentiras tornou-se passiva e fraca.

 

Esta pessoa que deixa de confiar em si mesma, inevitavelmente assistirá à manifestação concreta da falta de confiança que gerou à sua volta – ninguém confiará mais nela, ninguém acreditará nela. Se a pessoa não confia em si mesma e mais ninguém confia nela, que tipo de estrutura relacional existe?! Nenhuma. Existe uma “pseudo-estrutura” relacional, tão volátil e útil como uma cadeira feita fumo. Por outro lado, a pessoa inteira, aquela que valoriza e implementa quotidianamente a verdade na sua vida, ganha a força da autoconfiança e a força da confiança que os outros depositam nela.

 

Diz a verdade, escolhe o melhor momento para o fazer. Se o momento não chegar, não mintas e também não a expresses. Diz que ainda não estáz preparada para o fazer. Quando o momento chegar, sê doce nas palavras que escolheres. Se a verdade não trouxer benefício, não fales se não for perguntado. Se for perguntado, responde somente se existir benefício para o ouvinte.

 

Deixo aqui um verso muito bonito da famosa Śrīmadbhagavadgītā para que possas contemplar no seu significado –

अनुद्वेगकरं वाक्यं सत्यं प्रियहितं च यत् ।

स्वाध्यायाभ्यसनं चैव वाङ्मयं तप उच्यते ॥ १७.१५ ॥

anudvegakaraṁ vākyaṁ satyaṁ priyahitaṁ ca yat |

svādhyāyābhyasanaṁ caiva vāṅmayaṁ tapa ucyate || 17.15 ||

V.17.15 – O discurso que não causa sofrimento (ao ouvinte), que é verdadeiro, agradável e benéfico, e a prática da recitação do seu próprio Veda, é, de facto, chamado de disciplina espiritual referente ao discurso.

 

 

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O infinito ilimitado numa “casca de noz”

O infinito ilimitado numa “casca de noz”

 

Nada está separado do Infinito

Uma pergunta frequente é a seguinte: – Professor eu só consigo imaginar o infinito numa galáxia no universo. O professor consegue imaginá-lo de uma outra forma?”

 

Repara, o infinito que é espacial ou temporal não é infinito, porque o tempo e o espaço não são absolutos. O infinito transcende todos os conceitos de espacialidade ou de temporalidade. Infinito é o “lugar” não-espacial e não-temporal onde o tempo e o espaço acontecem. Esse infinito és tu, aqui presente neste preciso instante. Se o infinito existe, então nele tudo existe, incluindo o tempo e o espaço, por isso, em momento algum estás separado dele, porque nada está separado dele, incluindo tu. Esse infinito só pode estar aqui e agora.  Se está aqui e agora, és tu, porque tu estás aqui e agora. Seja lá o que for o infinito, não é espacial nem temporal.

 

 

A Verdade do Tempo não é um Intervalo de Tempo

A verdade do tempo, a realidade do tempo, não é um intervalo de tempo. A verdade do tempo é este preciso instante não medível, cuja natureza ou verdade transcende o tempo. Essa natureza é chamada Existência. A existência é o “lugar”, a verdade imutável onde o espaço e o tempo acontecem. Por outras palavras, o ser do espaço é a verdade do espaço. O ser do tempo é a verdade do tempo. O ser é a Existência, por isso pode ser chamado de Ser.

 

Qualquer objeto deste mundo, incluindo o espaço ou o tempo, são objetos do seu conhecimento. Por isso dizemos:  A caneta é. Uma árvore é. A Terra é. O Sol é. O tempo é. O espaço é. Já paraste para pensar no que é o É?! O “É” é o Ser, a Existência livre de limitações. Não há nada que não seja. Este Ser, a Existência, não é limitado pelo tempo, nem pelo espaço, porque o espaço e o tempo são. Se te perguntar: onde existe o tempo? Provavelmente nunca te fizeram esta pergunta, por isso provavelmente nunca deves ter pensado na resposta. Estará o tempo nele mesmo? Está longe do infinito? Outra pergunta é: será que o tempo pode condicionar o infinito, será que tem a capacidade de condicionar o infinito? A resposta é que o tempo existe na Existência, onde tudo existe. Quando digo “o tempo é”, isso significa que o tempo existe. O tempo depende da Existência para existir, para ser, contudo, a Existência é independente do tempo. Por isso, o tempo não tem capacidade de condicionar a Existência. Quando o tempo acabar, a Existência continuará. Jamais a Existência descontinuará de existir.

 

 

A Existência é independente de tudo, existe por Ela mesma

A Existência é independente de tudo, existe por Ela mesma. Aquilo que existe por si só, aquilo que existe sem depender de nada para existir, é a Existência. Como nada está longe ou separado da Existência, porque a Existência é ilimitada, a Existência é infinita, a Existência é o Infinito.

 

As pessoas estão habituadas a pensar no infinito em termos temporais e espaciais, contudo, o infinito em si é atemporal e não-espacial. O Infinito é o Ser, é a Existência não limitada temporalmente e não limitada espacialmente. Pensa assim, a Existência “veste-se” da roupagem chamada espaço, que está intimamente associado ao tempo, mas em si mesma é totalmente independente do tempo e do espaço, porque quando o tempo e espaço terminarem, a Existência continuará a Ser, continuará a Existir. O Ser continua a ser, quer haja ou não tempo e espaço. Então, a Existência não é temporal nem é espacial, intrinsecamente falando, portanto, é ilimitada.

 

Agora, tendo uma mente humana habituada a pensar de forma polarizada, habituada a objetivar tudo, a tendência é tentar encapsular a Existência infinita, assim como encapsulamos todos os outros objetos de cognição. Contudo, não é possível ter a cognição do Infinito ou da Existência infinita, como quiseres chamar, da mesma forma que encapsulas uma caneta na tua mente. Se pensares em caneta, uma forma mental da caneta surge na tua mente. Isso é encapsular a caneta, é objetivar a caneta. O Infinito, como não é um objeto da perceção dos sentidos, não pode ser objetivado pela tua mente como um objeto, por isso não pode ser encapsulado. A tendência de o imaginar deve ser abandonada pois é infrutífera.

 

Ao tentar imaginar o infinito em termos temporais, a mente, sendo vítima da sua polaridade, vai imaginar tudo o que passou e tudo o que virá a ser. Como a imaginação é limitada, a imaginação do infinito será limitada, será finita, será uma mera aproximação infinitamente distante daquilo que é o infinito realmente. Em termos espaciais o mesmo acontece.

 

Se se condiciona o Infinito por tudo o que foi para trás e por tudo o que será para a frente, espacialmente e temporalmente, estamos a dimensionar o infinito e isso é retirar-lhe a infinitude. Por natureza o Infinito é o Absoluto, aquele que é um sem um segundo. Esse Absoluto é o que tu és. Ganhar esta visão: Eu sou o Absoluto – é o objetivo do estudo Vedānta.

 

Então, eu não imagino o Infinito porque nunca o conseguirei fazer, nem nenhum ser humano o conseguirá fazer, pelas razões acima apresentadas. Agora, eu sei que eu sou o Infinito Absoluto, eu sei que sou a Existência infinita que permeia todas as coisas, da qual todas as coisas dependem para existir. Eu sei que transcendo este corpo-mente e sei que transcendo todos os corpos, porque sendo eu Existência infinita, transcendo o tempo, transcendo o espaço e tudo o que neles os dois acontece. Por esta razão, também não existe a ideia de localização interna do Eu aqui dentro deste corpo. Tu és Existência infinita, tu não estás localizado num ponto temporal-espacial. Por outro lado, todos os pontos temporais-espaciais estão localizados em ti, Existência.

 

Agora darei um exemplo que ilustra bem o que acabei de mencionar. Estou sentado na praia e vejo uma onda a rebentar na areia. E pergunto: o que é mais verdadeiro, a onda ou o oceano? Para entender a resposta primeiro é necessário entender que a onda não existe sem o oceano. A onda nada mais é do que uma forma que o oceano manifesta. Portanto, a resposta mais verdadeira é o oceano. Porquê? Porque a onda é uma consequência ou produto do oceano, porque o oceano é a causa da onda. Certo? Agora a pergunta é outra e convida a ir mais fundo na análise: quando olho para a onda e para o oceano, vejo a água; o que é mais verdadeiro, a onda, o oceano ou a água? A resposta certa é água. Porquê? Porque onda e oceano são formas da água, são formas que a água assume. A água está na forma de onda e na forma de oceano. A água assume várias formas, pode ser gelo, neve, gota, vapor de água, nuvem, rio, etc. Mas, a verdade de todas as formas de água é a água. Só há uma verdade, a água, presente em todas as formas de água, manifesta como todas as formas de água.

 

Quando pergunto onde está o oceano, a resposta é: ele existe na água, porque é feito de água. Posso então dizer que, no exemplo, a verdade ou o ser do oceano é a água e posso dizer que a água é o ser de todas as formas de água. Todas as formas de água têm o seu ser na água, porque na realidade são água. A água que é sem forma, assume todas as formas, existe sem uma forma específica, contudo, pode ser todas as formas, tem potencial para ser todas as formas.

 

Quando se pergunta à onda que descobriu que é o oceano e que, acima de tudo, também descobriu que é água, onde está localizada, a onda responderá de várias formas. Como onda, está em dada parte do oceano, viajando nele. Como água, é o oceano inteiro, por isso está em todo lado. Se a onda se vê como na realidade é, portanto, se se vê como água, então ela não dirá que está localizada numa dada parte do oceano ou em si mesma. Ela dirá que está por todo lado.

 

Este é o exemplo. Agora há que entender o exemplificado – a Existência, o Infinito. Assim como a água, a Existência transcende todas as formas. Tempo e espaço existem na Existência, são formas da Existência e a Existência é a verdade de ambos, porque ambos não existem sem a Existência. Podemos ver o espaço como o vasto oceano e podemos ver o tempo como a deslocação que uma onda demora a percorrer certa distância do oceano. Então, assim como o oceano e a onda não têm realidade absoluta, porque a realidade deles é a água, da mesma forma, o tempo e o espaço não têm realidade absoluta, porque a realidade deles é a Existência. Assim como a água não tem forma e nesse sentido não é um objeto, também a Existência infinita, não tendo forma, não é um dado objeto sensorial. Não sendo um objeto sensorial não pode ser imaginada, não pode ser encapsulada pela mente. Contudo, pode ser apreciada em todos os objetos, porque todos os objetos são existentes.

 

A mente só imagina objetos, só imagina formas, sejam elas visuais, sonoras, linguísticas, matemáticas, etc. Tudo neste mundo, à exceção da Existência, é objeto do pensamento. A Existência infinita que tudo transcende, que transcende todas as formas, é o Eu, Consciência. Este é o conhecimento do Eu Ilimitado revelado pelo Vedānta. Por isso é que o Vedānta é um pramāṇa, meio de conhecimento, que revela a realidade ou verdade do Eu, que como não é um objeto dos sentidos não está disponível para ser conhecido por outros meios de conhecimento.

 

 

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Rāma-navamī – O 9th dia lunar de Śrī Rāma

Rāma-navamī – O 9th dia lunar de Śrī Rāma

 

No 9º dia lunar a partir da lua nova, portanto, em śukla-pakṣa, nos quinze dias em que a lua fica mais brilhante, no mês de Caitra, entre Março e Abril, celebra-se por toda a Índia o nascimento de Śrī Rāma, um dos mais populares avatāras de Śrī Viṣṇu, a deidade responsável pela preservação e proteção do universo.

 

Diz-se que o nascimento dele foi há cerca de 5000 AC, em Ayodhya, Uttar Pradesh, no período do dia em que o Sol tem mais força, entre as 12h e as 13h horas.

 

Sendo descendente da dinastia Solar, era filho de Daśaratha, rei de Ayodhya e Kauśalyā. Tendo casado com Sītā, uma reencarnação da Devī, Śrī Rāma vê-se obrigado a abandonar a tomada de posse do reinado por força da vontade de seu pai, Daśaratha, que lhe pede para abandonar Ayodhya, momentos antes da tomada de posse.

 

Na realidade, Daśaratha viu-se obrigado a cumprir uma promessa feita no passado a Kaikeyī, sua segunda esposa e mãe de Bharata, irmão mais novo de Daśaratha. Ela, Kaikeyī, exigiu que Daśaratha cumprisse, naquele momento, a promessa que lhe tinha feito, que era realizar um desejo, fosse ele qual fosse. A razão da promessa de Daśaratha prende-se com o facto de querer reciprocar a ajuda que Kaikeyī lhe prestou no passado, tendo-lhe concedido um desejo, fosse este qual fosse. Portanto, Daśaratha passou um cheque em branco à sua segunda esposa.

 

Qual foi o desejo de Kaikeyī? Foi a coroação de Bharata, filho dela, em vez de Śrī Rāma, filho de Kauśalyā, a primeira esposa. Alguns poderão pensar que o rei poderia recusar satisfazer esse desejo e dizer a Kaikeyī que pedisse outro. Todavia, isso não era possível para um rei dharmico, cuja palavra era muito importante e que se via obrigado, por ser um kṣatriya, a cumprir com a sua palavra.

 

Na realidade, com a coroação de Bharata, o que Kaikeyī queria era ser a esposa mais importante de todas. Portanto, foi a avidez por reconhecimento, poder e fama que a fez proceder desse modo lamentável.

 

Assim sendo, com muito sofrimento, Daśaratha coroa Bharata, que se torna o rei. Porém, Bharata não queria ser rei e achava que o seu irmão é que era o rei justo, não somente pelas qualidade e virtudes que genuinamente possuía, que faziam dele um rei muito justo e um líder muito amado, mas porque o povo queria Śrī Rāma como rei.

 

Śrī Rāma, respeitando humildemente a decisão de seu pai parte para o exílio com Sītā, sua esposa e com Lakṣmaṇa, seu irmão mais novo, filho da terceira esposa de Daśaratha, chamada Sumitrā. Enquanto viviam na floresta, Sītā é raptada por Ravaṇa, um asura, que tinha muitos poderes sobrenaturais e os usava para o mal e para ganhar mais poder.

 

Śrī Rāma e Lakṣmaṇa, graças à incrível e corajosa ajuda do grande Hanumān, descobrem o paradeiro de Sītā, que estava refém em Lanka, o atual Shrilanka. A história diz que uma enorme batalha foi travada e que finalmente Śrī Rāma matou o demónio Ravaṇa e voltou com Sītā para finalmente governar Ayodhya.

 

A vida de Śrī Rāma pode ser conhecida pelas narrativas do grande poema épico escrito por Vālmīki, intitulado Rāmāyaṇa, as ayanas, “idas”, aventuras ou feitos, de Śrī Rāma.

 

Śrī Rāma inspira todos os seres humanos a conduzirem as suas vidas no sentido do dharma e da justiça, pois a sua própria vida foi um exemplo deles. Śrī Rāma era um exímio arqueiro que nunca falhava o alvo. Assim que ele se decidisse a soltar uma flecha, esta certamente iria acertar o alvo. A flecha é um indicador do karma que cada ser humano gera e que, inevitavelmente e infalivelmente, voltará a ele. Śrī Rāma é um avatāra de Viṣṇu, o Todo, o Absoluto, que é karmaphaladātṛ, o dador do resultado dos karmas. A flecha de Śrī Rāma indica isso mesmo, o karma que cada um irá ter.

 

Rāma era muito amado pelo povo pelas suas qualidades de liderança, pela sua justiça e pelo amor genuíno que tinha ao povo e à humanidade. Por isso mesmo é um modelo de liderança, um modelo para todos nós seguirmos.

 

A palavra Rāma é muito bonita e, para terminar, deixo aqui a sua derivação em Sânscrito para que possas apreciar a sua beleza:

 

यस्मिन् अनन्ते नित्यानन्दे चिदात्मनि योगिनः रमन्ते इति रामः ।

yasmin anante nityānande cidātmani yoginaḥ ramante iti rāmaḥ |

“A infinitude, a felicidade ilimitada, que é o Eu-Consciência, no qual os Yogins residem é Rāma”

Rāma é a Verdadeira Natureza, o Eu Ilimitado, o objeto de meditação espontânea dos Yogins.

 

 

 

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Guru-śiṣya-sambandhaḥ – A relação entre o professor e o aluno

Guru-śiṣya-sambandhaḥ – A relação entre o professor e o aluno

 

A nossa vida é feita de vários tipos de relações, sem as quais não seria possível vivermos uma vida normal e equilibrada, porque muito do equilíbrio e força individual advém precisamente do equilíbrio e força ganhos nas relações. A todo o momento relacionamos-nos com algo, seja uma pessoa, um animal, uma planta, um facto, uma situação ou um objecto. Quando a pessoa não se relaciona com o mundo externo, é porque, nesse momento, provavelmente está a relacionar-se com o mundo interno. Não podemos abrir mão desta jóia de crescimento que são os relacionamentos.

 

Existem muitos tipos de relações interpessoais: temos relações interpessoais de sangue ou familiares, românticas ou afectivas, profissionais, amigáveis e também, podemos dizer, neutras, nas quais não há nenhum investimento emocional ou afectivo. Se alguém nos perguntar as horas na rua, há obviamente uma relação interpessoal, contudo é neutra, porque não há um investimento afectivo.

 

De entre as relações interpessoais, a primeira relação de um ser humano é com a mãe. Esta é uma relação tremendamente importante, não só porque um ser humano vive nove meses dentro de outro, mas porque será dependente dele por bastantes anos. Um filho literalmente habita no ventre da mãe, absorvendo umbilicalmente todos os nutrientes e oxigénio que precisa. Se não fosse assim não sobreviveria. A natureza é incrivelmente magnífica e sábia.

 

Depois do parto, que é a verdadeira chegada do bebé ao mundo, o cordão umbilical é cortado. Os dois, mãe e filho, são separados fisicamente, porém continuam juntos pelo milagroso amor de mãe. Temos então um bebé totalmente indefeso e incapaz de sobreviver sozinho, que se completa com uma mãe totalmente pronta, equipada e preparada para defender e nutrir a sua cria. Nessa altura, após o nascimento, apesar do bebé ter ouvido a voz do pai enquanto ainda estava dentro do ventre da mãe, ele conhece-o fisicamente, sentindo agora uma energia diferente, a energia paterna, da qual também ele é feito. Então, em condições normais, a relação com o pai é a segunda relação. Juntos, pai e mãe, são tudo o que o bebé tem.

 

A terceira relação que o bebé conhece é a relação entre o pai e a mãe. Ele absorverá tudo o que conseguir dessa relação. Todo o amor trocado entre eles será sentido pela criança. É claro que, mesmo durante a gravidez o bebé já foi tendo conhecimento dessa relação, porque os ouvia e sentia, contudo, como ainda não estava separado fisicamente da mãe, como ainda era parte dela, era diferente. Ainda assim, todo o amor e também o desamor que o casal experimenta durante a gravidez vai sendo registado e absorvido pelo bebé. Como todos bem sabemos, é importante que o pai e a mãe desenvolvam entre ambos uma relação honesta, amorosa, amigável e de companheirismo para que o bebé a assimile desde muito cedo.

 

Depois, à medida que vai crescendo e desenvolvendo-se, o bebé vai tornar-se uma criança, vai conhecer os seus familiares, os amigos dos pais e vai fazer muitas amizades com as quais terá oportunidade de brincar e aprender a relacionar-se. Eventualmente, terminará os seus estudos e descobrirá também qual o seu talento e contributo para o mundo, usando-o para prosperar financeiramente. Bem mais tarde, caso deseje, independentemente da sua orientação sexual, poderá ter um parceiro ou parceira com quem poderá ter um bebé, seja ele biológico ou adoptado. Este é o ciclo – nascer, crescer, estudar, trabalhar para prosperar financeiramente, constituir família, aposentadoria e morrer.

 

Algumas pessoas descobrem que este ciclo, apesar de ser normal, é incompleto. Falta-lhe algo, porque a vida não pode ser simplesmente isto. Não faz sentido trabalhar toda uma vida para depois morrer e deixar tudo para trás. Se supusermos que este ciclo é completo, então temos que admitir que ele é sem significado, simplesmente pelo facto de que as pessoas não se sentem realizadas, mesmo tendo realizado com sucesso todos os passos do ciclo. Se o ciclo fosse completo, então as pessoas, tendo-o terminado, deveriam sentir-se completas e realizadas, o que não acontece.

 

A pergunta é: O que falta a este ciclo e o que o completa?

 

Este ciclo é assente, do início ao fim, em ignorância – a ignorância fundamental, a ignorância universal. Que ignorância é esta? É a ignorância da verdadeira natureza de si mesmo e de todas as coisas. É esta ignorância a causadora do senso de vazio, o sendo de inadequação, o senso de insuficiência, que acompanha a pessoa enquanto ela atravessa todas as etapas da vida, mas que apenas se começa a manifestar em criança quando o senso de individualidade fica formado e que se torna inegavelmente visível na adolescência, perdurando para o resto da vida.

 

Ignorando a dimensão espiritual de si mesmo e, consequentemente, concluindo que tudo o que a pessoa é, é somente o complexo corpo-mente, naturalmente surge insuficiência, porque o corpo, a energia vital e a mente são insuficientes. Por outras palavras, há um senso de insuficiência centrado no corpo, por isso a pessoa pensa: “não sou suficientemente bonito” ou “não sou suficientemente alto”, etc. Há um senso de insuficiência centrado na energia vital e há também um senso de insuficiência centrado na mente. Este senso de insuficiência é transversal e condena a pessoa a desejar ser mais: ser mais em termos de corpo, ser mais em termos de energia e ser mais em termos da mente. Então, é esta insuficiência vestida de desejo que empurra e motiva ferozmente as pessoas para a acção, agir para serem mais, agir para serem diferentes, agir para serem melhores.

 

Há um problema radical neste ciclo incompleto, simplesmente pela razão de que não é resolvido com a acção. Por mais que a pessoa aja, continuará a sentir-se insuficiente, continuando a desejar mais e mais. Assim é porque a acção não remove o senso de insuficiência, nem remove a ignorância que o causa. Este é o feitiço da vida que aprisiona a pessoas a um ciclo intrinsecamente incapaz de as satisfazer e realizar.

 

Como acabar com o feitiço? Há que recorrer à magia, há que recorrer a um mago. O mago é chamado guru, mestre ou professor. Guru é a pessoa que remove a escuridão. A sílaba “gu” representa a escuridão e a sílaba “ru” representa o removedor. Qual é o feitiço? É a ignorância. Qual é o antídoto? É a poção mágica chamada conhecimento que quebra o feitiço, que faz a pessoa sair da falsa fantasia. Qual é a falsa fantasia? É a pessoa acreditar que é somente o corpo-mente e que não existe uma dimensão mais profunda em si. Sem receber a poção mágica do conhecimento, ninguém conseguirá por si mesmo livrar-se do feitiço, porque o feitiço é a própria vida que é tida como real na qual a pessoa vive.

 

Fica claro, agora, que esta última relação é muito, muito importante. Todas as relações são importantes, mas três são as que se destacam: a relação com a mãe, com o pai e com o mestre. A relação com o mestre é a mais peculiar destas três, porque, apesar de geralmente não ser uma relação familiar ou de sangue, encontramos no mestre uma figura tanto paternal, quanto maternal. O mestre é simultaneamente o pai e a mãe espiritual e o aluno é o bebé espiritual.

 

Esta não é uma relação de troca, simplesmente porque o mestre não recebe nada. Quem recebe é somente o aluno. Recebe o conhecimento de si mesmo, que é a poção mágica que o liberta do feitiço. Esta relação é destinada a isso mesmo e a nada mais – remover a ignorância que o bebé espiritual tem para que fique livre do saṁsāra, para que fique livre do sofrimento que é a constante insuficiência sentida durante a vida. Se a mãe e o pai trazem a criança ao mundo, ao saṁsāra, é o guru e mais ninguém que a retira do saṁsāra, retirando também por vezes o seu pai e a sua mãe.

 

Imaginem alguém que caiu em areias movediças. Quanto mais essa pessoa se mexe, mais ela se afunda. Sozinha não conseguirá sair e morrerá a tentar. É uma aflição, é um sofrimento. O saṁsāra é isto mesmo. As pessoas estão nas areias movediças da vida, sofrendo da insuficiência, do vazio, do senso de inadequação causados pela ignorância, esperando em vão que, sozinhas e através da acção, se consigam soltar e ficar livres, mas isso nunca chega a acontecer. Quanto mais agem, mais se fundam nas areias movediças da vida. Repara no seguinte, que é muito importante: os que pensam que casar é a solução, geralmente desiludem-se e acabam divorciados, porque casar vai com certeza revelar o senso de insuficiência enquanto marido ou mulher; os que pensam que ter filhos é a solução, esses certamente se desiludem e muito rapidamente entenderão a quantidade de insuficiência e inadequação que está centrada em ser pai e mãe e toda a culpa inerente à parentalidade; os que pensam que a profissão é a solução, na aposentadoria claramente entenderão que não é. Quanto mais agem, mais se afundam. Este facto merece ser contemplado.

 

Como sair disto? Primeiro, é necessário compreender que sozinho não será possível. Depois, é necessário pedir ajuda, é necessário gritar bem alto para que alguém ouça e venha ajudar. Depois, é necessário confiar que essa pessoa que vem ajudar e que está livre das areias movediças nos consegue ajudar. Finalmente, é necessário colaborar com a ajuda que nos está a ser dada.

 

Que troca existe entre a pessoa que salva outra das areias movediças? Nenhuma. Uma salva a vida à outra e a outra ficará eternamente agradecida por ter sido tirada de lá. O guru é a pessoa que está na terra firme do conhecimento, livre e que possui a capacidade e as ferramentas necessárias para ajudar outra a sair das areias movediças do saṁsāra. Para isso, a pessoa tem que pedir ajuda, tem que pedir para ser ensinada. Este pedido resulta da compreensão de que sozinha não consegue resolver o problema. Então, tem que haver total confiança no guru, assim como tem que haver total confiança da pessoa que está a afundar-se em areias movediças na pessoa que a irá tirar de lá. Enquanto isto não for percebido, não há verdadeiramente uma relação entre o aluno e o mestre.

 

Saṁbandha significa relação. Neste caso, a relação é algo que prende duas pessoas, o guru (mestre) e o śiṣya (aluno) a um propósito – a remoção do feitiço chamado ignorância. Este propósito maior, a liberdade, é o que junta ambos. Podemos dizer que é uma conspiração cósmica porque é um evento único e muito especial.

 

Śiṣya é uma palavra muito significativa, pois significa śikṣaṇīyaḥ, aquele que é para ser ensinado, aquele que merece ser ensinado. Isso significa que o aluno deverá reunir ou fazer por reunir tudo aquilo que o ajudará a colaborar com o trabalho do professor. O trabalho do professor é ensinar e transmitir o conhecimento para a mente do aluno. Então, torna-se óbvio que a colaboração do aluno é em desenvolver as qualidades mentais necessárias para poder aprender o melhor possível. Aqui não estamos somente a falar de qualidades cognitivas, como a atenção e o raciocínio. Estamos também a falar de inteligência emocional, a capacidade de lidar saudavelmente com as emoções. Tudo isso é esperado do aluno, tudo isso é a sua colaboração com o professor e com o ensinamento. Quanto melhor for o crescimento em termos de maturidade, melhor é a colaboração do aluno.

 

Como invocar o professor na pessoa que desempenha o papel de professor?

 

O segredo é a humildade e a prontidão para aprender e ajudar no que for preciso. A humildade do aluno invoca o professor. Se o aluno tem o ego grande e pretende enganar o professor fazendo de conta que já sabe ou que sabe muito, o professor não ensina, porque é inútil ensinar quem já sabe e mais inútil ainda é ensinar o ego que acha que já sabe. É fácil acordar quem dorme. Contudo, é impossível acordar quem está acordado ou quem finge que dorme. Quem está acordado não precisa que o acordem porque está acordado. Quem finge que dorme não vai acordar, porque está a fingir. Similarmente, o aluno que acha que já sabe e vaidosamente o mostra, nunca despertará do sono da ignorância. A honestidade é um dos valores de qualquer relação. Não há vergonha nenhuma em não saber. Porém, há muita vergonha em revelar que fingiu que sabia, quando na realidade não sabia. Ser honesto é um requisito fundamental na relação professor-aluno. Se não houver honestidade, não há relação possível.

 

O professor é também invocado pelo respeito adequado seguindo um determinado protocolo. O professor é amigável, mas isso não significa que seja amigo. Por isso, é bom ter sempre em mente que o professor é o professor e não o amigo de infância ou adolescência com quem se vai almoçar. O respeito protege o aluno, porque respeitando o professor, o próprio aluno é respeitado.

 

A honestidade, o respeito e a humildade e outras virtudes formam a estrutura que permite que o amor se manifeste. O aluno sentirá amor pelo professor e vice-versa. É este amor que torna a relação única. É um amor livre, porque o propósito é a própria liberdade, na qual o aluno descobre que, essencialmente, ele não é diferente do guru.

 

 

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Amar o próximo

Amar o Próximo

 

O Natal está mesmo a chegar e logo depois chega também o novo ano de 2022. Para quase todos nós esta é uma altura de reunião familiar e também de muita reflexão porque mais um importante ciclo está prestes a terminar.

 

Nesta altura temos a oportunidade e também o oportuno pretexto para dar o amor e o carinho que sentimos às pessoas que nos são especialmente queridas. Muitos fazem-nos com mensagens e telefonemas desejando o melhor, desejando muito amor, paz e abundância. Outros, podendo, viajam para se encontrarem “em carne e osso” com os seus familiares, comprando-lhes prendas e presenteando-os com as comidas e as bebidas típicas desta época, que compraram especialmente para o efeito, para que nada falta na consoada e no dia de Natal. Os que não podem viajar para estarem juntos presencialmente, seja por questões profissionais, económicas ou familiares, têm a oportunidade de fazer uma consoada virtual por Zoom, Skype, Whatsapp, o que não sendo o melhor, é sem dúvida bem melhor do que nada! Outros ainda, devido às angularidades austeras e implacáveis da vida, passam esta época mais sós, lembrando com muita saudade os que já partiram, desejando a sua presença e carregando no peito a dura dor da sua ausência. Cada um vive o Natal e a vinda do ano novo à sua maneira, de acordo com a sua educação, valores, e condição atual. Contudo, podemos dizer que a busca por dar e receber amor é transversal, é geral, é universal.

 

Quando penso no Natal, invariavelmente penso no grande Mestre Jesus e em tudo o que ele representa e lembro um dos seus maiores ensinamentos, senão mesmo o maior – o do Amor ao próximo. Geralmente, dirigimos o nosso amor aos que são importantes para nós. Somente as pessoas queridas, íntimas, significativas, que geralmente são familiares e amigos recebem o nosso amor. Se assim é, então este amor é limitado, é limitado na sua expressão – é um amor pequeno que ainda precisa de crescer.

 

Este amor cresce quando nos damos conta de que somos uma só Humanidade. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos uma só Vida. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos uma só Terra. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos um só Universo. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos um só Ser. Este amor cresce quando nos damos conta de que somos todos Um. O entendimento deste ensinamento – Somos todos Um – é a base para a expressão do amor incondicional, chamado dayā, compaixão, que é o que Jesus realmente quer dizer com “Amor ao próximo”. O nosso querido mestre Swami Dayānanda disse uma vez numa das suas aulas: “a expressão dinâmica do Ser, é a compaixão, é o amor.”

 

A questão agora é a seguinte: se a expressão dinâmica do Ser é o amor, a compaixão, então porque é que todas as pessoas não vivem expressando amor e compaixão?

 

Esta pergunta é muito importante e a resposta ainda mais. A realidade é que todos conseguimos expressar amor. Isso é facilmente apreciado na forma amorosa em que qualquer ser humano, em situações normais, trata um bebé ou até um animal. Os animais e os bebés invocam em nós a pessoa amorosa, a pessoa compassiva. Na presença deles o amor naturalmente surge. Surge porque eles não invocam resistência em nós, surge porque podemos ser quem realmente somos sem o medo de sermos julgados. Então, presta atenção, o medo de sermos julgados e a nossa resistência interna ao momento presente, ao que estamos a experienciar a dada altura, são bloqueadores do amor.

 

E mais, quando cuidamos de um animal de estimação descobrimos em nós uma grandeza, a grandeza de contribuir, de contribuir para o bem de alguém diferente de nós. A descoberta desta grandeza é a porta de entrada para o entendimento de um ensinamento profundo – o amor e cuidado que damos aos demais é imensamente curativo, é extremamente sanador do ponto de vista emocional. Porquê? Porque esta grandeza, a capacidade de dar amor ao próximo, tem o potencial de se transformar em profunda gratidão, a gratidão que vem do reconhecimento de ser privilegiado por estar numa posição de conseguir dar amor e cuidado. Isto o dinheiro jamais comprará. A única moeda de troca para a gratidão é o amor. Somos gratos a quem nos faz bem, a quem nos ama. Se faço bem a mim, sinto-me grato. Se me fazem bem, sinto gratidão por quem me faz bem. A regra é simples: quanto mais amor deres, mais gratidão sentirás. A gratidão é a bênção que Īśvara nos dá de presente por darmos amor, por termos compaixão.

 

O segredo para o amor incondicional é conseguires expandir o senso de “eu” o mais que puderes. Expande-o para o Universo Inteiro e verás o que acontece. Ficarás surpreendido. Sentirás amor pela terra húmida, sentirás amor pela água, sentirás amor pelo ar que respiras, sentirás amor pelo Sol, pela Lua e pelas estrelas.

Sentirás amor pelas formigas, mesmo que elas decidam que o pote de mel e o pacote de bolachas são delas e não teus. Sentirás amor por todas as criaturas. Sentirás amor por tudo e sentir-te-às infinitamente grato por poderes sentir amor de forma não limitada.

 

Talvez o Natal seja renascer nessa pessoa em quem o amor incondicional se manifesta sem resistência. Talvez o Natal seja renascer nessa pessoa em quem a compaixão brota como a água duma nascente. Talvez o Natal seja a descoberta de que essa pessoa chamada Jesus, nosso Mestre, já existe dentro de ti.

 

 

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Ahiṁsā – Não-violência

Ahiṁsā – Não-violência

Texto de Paulo Vieira

 

Vivemos num mundo extremamente complexo no qual são incontáveis as variáveis que determinam a nossa condição futura. Este mundo foi-nos dado, estamos todos nele e não há como evitá-lo. Já os nossos pais estavam nele, bem como os nossos avós e todos os antepassados, graças a quem tu estás, neste preciso e especial momento, a ler estas palavras.

 

Não é que o mundo se tenha tornado complexo nesta geração, pois ele já assim o era. O mundo sempre foi complexo e isso não mudará. Esta complexidade do mundo, da vida, dos relacionamentos e das próprias questões fundamentais da existência humana, desorienta as pessoas, assustando-as e deixando-as confusas relativamente ao rumo a tomar neste oceano de infindáveis oportunidades chamado vida.

 

Para além da confusão natural, tremendamente sentida na adolescência, fase em que a individualidade de cada um se sobrepõe à vontade parental naturalmente instituída desde o nascimento, muitos de nós, infelizmente, não tiveram modelos parentais ideais que poderiam eventualmente ter sido um fator de diminuição dessa confusão ou desorientação inerente à vida. Quando assim é, quando uma criança é educada por pais incapazes de educar, estando eles mesmos confusos sobre a vida, essa criança pode transformar-se num adolescente problemático para ele mesmo e para a sociedade.

 

Quero dizer e tornar claro que acredito que qualquer pai ou mãe quer dar o seu melhor e que faz tudo o que está ao seu alcance para ser um bom educador. Contudo, há uma diferença entre querer ser um bom educador e conseguir sê-lo. Para se ser um bom educador não basta querer, é necessário também aprender. Para além disso, é preciso ainda consumar a educação, educando de facto e também levar uma vida que sirva de exemplo, na qual as ações do educador são a luz orientadora para quem vem atrás.

 

O futuro da humanidade são as crianças. Elas são puro potencial criativo que um dia se manifestará. Se queremos bons pais, bons educadores, então, necessariamente, teremos que educar bem as nossas crianças, para que elas se tornem também em bons educadores e bons pais.

 

A pergunta agora é: como é que se educa bem uma criança?

 

A resposta não é linear nem simples. De facto, nós, humanidade, ainda estamos a descobrir como educar bem as nossas crianças. O mundo muda, evolui, traz situações que não existiam no passado e coloca-nos constantemente em posições novas e desafiantes. Há 100 anos atrás a discussão sobre as mudanças climáticas não era assunto de interesse público, mas hoje é! Há 30 anos atrás não se falava dos perigos inerentes à internet e às redes sociais, mas hoje em dia todos estamos preocupados com isso. Com a mudança veloz das estruturas do mundo, os modelos educacionais das nossas crianças ficam rapidamente ultrapassados, porque a nossa sociedade é tecnológica, é de informação e cavalga quase tão rápido como o próprio tempo, tornando esses modelos forçosamente obsoletos.

 

Apesar dos modelos educativos poderem e serem de facto ultrapassados, jamais será ultrapassada a necessidade que as nossas crianças têm de aprenderem os vários valores éticos e morais. Reparem que a sociedade poderá mudar e mudará, mas jamais mudará o facto de todos querermos viver em paz e felizes, de todos querermos um mundo mais pacífico e com oportunidades de realização para todos. Se queremos um mundo pacífico, então temos todos que aprender a sermos pacíficos. Não há outra via para a paz a longo prazo a não ser valorizar a paz e praticá-la.

 

Os Yogis sábios da antiguidade sabiam que os valores éticos e morais são a estrutura que sustenta a paz entre os humanos. Algures, no grande épico Mahābhārata, ocorre a popular frase “ahiṁsā paramaḥ dharmaḥ” – a não-violência é a maior virtude, é o maior valor. Os Yogasūtras, no sūtra 2.30, também mencionam este valor como um dos yamas, disciplinas comportamentais nas quais nos abstemos de algo. Para a pessoa que estude Vedānta o valor da pacificidade também é conhecido e denotado pelos Mestres como sendo de suma importância. Então, este é, sem dúvida alguma, um valor a ser ensinado a todas as crianças do mundo.

 

Mas o que é ahiṁsā, não-violência ou pacificidade?

 

A definição em sânscrito é a seguinte –

 

वाङ्मनःकायैः सर्वभूतानां पीडाभावः अहिंसा ॥

vāṅmanaḥkāyaiḥ sarvabhūtānāṁ pīḍābhāvaḥ ahiṃsā ||

A não-violência é a ausência de violência para com todos os seres vivos, ao nível da voz, da mente e do corpo.

 

Este valor tem que ser valorizado através da compreensão consensual e comum de que ninguém gosta de ser objeto de uma ação violenta, seja ela mental, oral ou física. Quero dizer com isto que é do senso comum o seguinte: “se não gosto que me façam mal, que me violentem, então não farei mal aos demais, não violentarei os demais, pois também, certamente, eles não gostarão”.

 

A reflexão nesta ideia deverá ser encorajada a todas as crianças e deverá ser acompanhada da lembrança das emoções sentidas quando a criança se sentiu violentada. O valor da paz só poderá ser verdadeiramente valorizado quando se torna um valor para o próprio, portanto, quando o próprio o valoriza. O mecanismo é ironicamente eficaz, pois tendemos a valorizar a paz somente quando a perdemos. Então, há que trazer à memória a perda dessa paz juntamente com as emoções consequentes. Depois, há que fazer ver a essa criança que todos queremos paz, que não é somente ela que quer paz e que, se todos formos mais pacíficos, todos teremos mais paz. A criança terá que entender que se cada um contribuir com a sua parte da paz, a paz cresce para todos. A contribuição individual resulta num benefício coletivo bem como individual.

 

Não é à toa que a tradição Védica nos ensina que o valor da pacificidade é o mais exaltado. A razão para isso fica clara quando se entende que a paz é o tecido onde reside a harmonia individual, familiar, social e mundial. Sem paz individual não há paz familiar., sem paz familiar não há paz social., sem paz social não há paz mundial.

 

A não-violência tem duas direções, a primeira é interna, a segunda é externa. A não-violência interna é a prática da pacificidade com o complexo corpo-energia-mente. A não-violência externa é a prática da pacificidade com o mundo externo, em todas as formas no qual está manifesto.

 

Na primeira, interna, a pessoa deverá aprender a aceitar inteligente, objetiva e pacificamente as suas próprias limitações, entendendo que ultrapassar os limites do seu complexo corpo-energia-mente é um ato violento. Ir além dos limites razoáveis que cada um tem, põe em risco a saúde física, a saúde energética e mental. Então, quando se pensa em não-violência, deverá ser incluída a componente fundamental da relação consigo mesmo. A relação consigo mesmo deve ser não-violenta. O resultado a médio-longo prazo de se relacionar não-violentamente consigo mesmo é chamado maturidade emocional, algo tremendamente desejável para todos os seres humanos. Quanto mais cedo na vida a pessoa se torna madura emocionalmente, menos se violenta a si mesma e naturalmente menos violentará os demais. Isso é muito desejável tanto a nível individual quanto coletivo.

 

Na expressão externa da não-violência criamos um ambiente onde a segurança individual aumenta, porque os demais não se sentem ameaçados com a nossa conduta. Com isso vemos pessoas mais relaxadas, calmas e com níveis de stress baixos. Num lugar onde o índice de violência é baixo, as pessoas naturalmente sentem-se mais conectadas, livres e à vontade para serem quem são, expressando os seus talentos e virtudes sem medo de represálias ou ameaças. Por outro lado, vemos que um ser humano inserido num ambiente continuamente hostil desenvolve traumas, medos, ansiedades e cria, consequentemente, um comportamento reativo-defensivo como resposta. Ele deixa de poder expressar as suas virtudes em função da necessidade instintiva de se proteger, porque muita da sua energia é empregue na sua proteção. Para além disso, tendencialmente a violência é respondida com violência, o que gera mais violência. É como gasolina atirada para uma fogueira! O efeito é catastrófico.

 

Cada um sai muito beneficiado com apenas alguns minutos de contemplação reflexiva sobre o que é a pacificidade e quais as consequências positivas e desejáveis deste nobre valor que se transforma numa conduta de vida. A análise de como e quando se é violento abre a possibilidade ao vislumbre de como não o ser. Daí, cada um poderá implementar metas diárias para aperfeiçoar e implementar ahiṁsā nas suas vidas sem necessidade de recorrer a filosofias complicadas.

 

Para os que buscam espiritualmente a paz, que fique bem claro que somente pela paz a paz é alcançada. Pela prática da paz surge a estabilidade na prática da paz. Pela estabilidade continuada na conduta pacífica, surge a descoberta da santidade, que é a natureza pura mental de cada um que assume a forma de compaixão. Então, há a descoberta de algo muito profundo e bonito, sarvabhūtadayā, a compaixão dirigida a todos os seres, que não é mais do que o desejo de que todos os seres não sofram, de que todos os seres possam ter paz.

 

Tendo como valor no coração a conduta pacífica, a pessoa abstém-se da conduta violenta. Há que aprender a vigiar os pensamentos, aprender a filtrar as palavras e aprender a conter qualquer expressão ou impulso físico violento. Um Yogin é alguém íntegro, uma pessoa em quem o pensamento, a palavra e a ação estão alinhados.

 

Alinha-te pela paz. Amorosamente, sê pacífico contigo mesmo e com os demais seres que partilham a vida aqui na Terra contigo.

 

 

 

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O segredo por detrás das boas decisões

Texto de Paulo Vieira

 

Viver implica escolher, simplesmente porque a vida é feita de escolhas sucessivas. A cada momento é esperada de mim uma escolha, uma decisão, que afetará inevitavelmente o meu futuro, para melhor ou para pior. O que nos une em todas as decisões que tomamos é o desejo por uma vida melhor, mais sábia, mais rica e mais realizada.

 

Contudo, se olharmos para a vida de outras pessoas, ou mesmo para as nossas próprias vidas, reparamos que as nossas escolhas ou decisões nem sempre nos colocaram na melhor posição ou na posição que realmente desejamos e muitas vezes damos por nós arrependidos ou culpados e consequentemente revoltados, ou simplesmente tristes e desapontados porque tomamos uma má decisão.

 

Para algumas pessoas, as más escolhas ou decisões são de tal forma abundantes, que a vida delas é um autêntico drama repleto de sofrimento e arrependimento. Tais pessoas vêem-se constantemente presas num ciclo destrutivo, numa espiral descendente de más decisões que levam a mais más decisões e que consequentemente as colocam em posições extremamente indesejáveis e muito perigosas. Exemplo disto são as pessoas dadas ao crime. Para outras, parece haver uma predominância de boas escolhas, que levam a mais boas escolhas, permitindo-lhes desfrutar plenamente da vida em todas as suas áreas e usufruir do melhor que a vida tem para oferecer.

 

Porque é que algumas pessoas tomam más decisões e outras tomam boas decisões? Existirá algum fator que leve uns a decidir mal e outros a decidir bem?

 

Somos dotados da capacidade de sentir emoções, o que faz de nós seres emocionais, porém somos também dotados da capacidade de pensar racionalmente, por isso também somos seres racionais. Por vezes, direi mesmo muitas vezes, existe um conflito interno no momento de decidirmos. Como?

 

Racionalmente sabemos o que é melhor para nós, até porque muitas vezes isso é simplesmente óbvio e muito claro, contudo, emocionalmente somos empurrados para uma decisão contrária. Darei um exemplo que ilustra bem esta situação. O almoço está simplesmente uma delícia e tu comes com muito prazer. A certa altura, terminas o que está no prato e sentes-te plenamente satisfeito, o que indica que já não é necessário alimentar mais o corpo, pois ele já deu sinais de que a quantidade de comida foi suficiente. Porém, como a comida está tão deliciosa, o desejo por comer mais empurra-te para encheres e de novo o prato e repetires a dose. No final da refeição, em vez de te sentires satisfeito, sentes-te empanturrado, ligeiramente indisposto e também culpado ou arrependido. Situações como esta são muito comuns, sabemos aquilo que é certo e acabamos por fazer o que é errado. Se continuares a cometer o mesmo erro, ou seja, se persistires em comer demasiado em todas as refeições, ganharás peso e provavelmente problemas de saúde relacionados com o aumento de peso e não é isso que realmente desejas.

 

Neste caso, é o teu desejo ou amor à comida que se sobrepõe ao teu pensamento racional e na linguagem técnica de Vedānta dizemos que foi uma decisão baseada em rāga, o desejo intenso de obter algo de que gostamos muito e que causa algum tipo de sofrimento se não for realizado.

 

Por vezes a decisão não é motivada por rāga, mas sim por uma aversão. A palavra sânscrita para aversão é dveṣa. A aversão é um desejo intenso de afastar ou fugir de algo de que não gostamos, de algo que odiamos. E assim como um rāga, o desejo intenso de possuir algo, turva a racionalidade da mente, empurrando para uma decisão que no fundo a pessoa não quer tomar, também um dveṣa turva a mente.

 

Como? Darei mais um exemplo. Supõe que é o aniversário de um familiar teu de quem gostas muito. Haverá uma festa de aniversário para a qual foste convidado e queres muito ir, não apenas para felicitar o aniversariante, mas também porque irás encontrar lá pessoas queridas com as quais não tens um contacto regular e assim poderás pôr a conversa em dia. Uns dias depois, em conversa com outro familiar, descobres que também vai a esse mesmo aniversário uma pessoa que tu não toleras, porque a consideras muito arrogante  e até já foi indelicada contigo várias vezes em várias ocasiões. Reconheces que tens um dveṣa muito forte relativamente a esta pessoa, porque sentes-te muito desconfortável na presença dela e tens emoções desagradáveis quando a vês. Faltam dois dias para o aniversário e tu ainda não deste a resposta afirmativa ao convite porque estás num dilema – ir ou não ir.

 

O lado racional apresenta-te a escolha certa: “é tão agradável festejar o aniversário, rever antigos amigos, conviver e ser feliz com eles, eu também adoraria a presença dos meus familiares e amigos no meu aniversário”, porém o lado emocional conta outra história: “aquele fulano que eu detesto vai estar lá e tenho a certeza que se vai dirigir a mim propositadamente para me arreliar e envergonhar à frente de todas as pessoas só porque sou vegetariano e espiritual e eu sei que não vou conseguir agir calmamente e também sei que ficarei chateado depois”, por isso “penso” que o melhor é não ir.

 

Este é um dilema muito comum cuja análise torna claro que a oportunidade de seguir o svadharma, o dever próprio, ou seja, fazer aquilo que deve ser feito, se pode perder quando a mente fica turva pelos dveṣas. Portanto, rāgas, desejos intensos e dveṣas, aversões intensas, são um dos fatores que nos levam a tomar más decisões, aos quais temos que estar atentos e para os quais o antídoto é Karmayoga.

 

Outro dos fatores para as más decisões é a falta de informação ou informação errada. Para tomarmos uma boa decisão é importante estarmos bem informados sobre as opções que temos, por isso informa-te devidamente antes de tomares uma decisão ou fazeres uma escolha. Normalmente, a falta de informação na tomada de uma decisão é devido à impulsividade, que é o impulso brusco e quase inevitável de tomar a decisão naquele preciso momento sem poder esperar e decidir mais tarde. Se tiveres a opção de poder decidir mais tarde, sem que isso reduza significativamente as tuas opções, então decida mais tarde, pois terás mais tempo para te informares.

 

Informa-te sempre com quem é da tua confiança, com quem sabe do assunto em questão e, muito importante também, que seja uma pessoa neutra relativamente à decisão e ao seu resultado. A neutralidade do teu informador perante a tua decisão é importante, pois assim terás a certeza que os conselhos ou sugestões que te dará não serão motivados por um interesse pessoal.

 

Agora falar-te-ei um pouco de Viveka, uma qualidade, um fator ou capacidade imprescindível para tomar boas decisões. Viveka é comumente traduzido como discernimento ou como discriminação. A palavra viveka é composta pelo prefixo “vi”, pela raiz verbal “vic” (vicir) e pelo sufixo “ghañ”. O prefixo “vi” significa viśeṣeṇa, de forma especial ou abundante. A raiz verbal tem o significado de distinção, dividir, separar. O sufixo “ghañ”, confere o mero significado da ação indicada pela raiz. Esta foi a vyutpatti, a etimologia da palavra.

 

Agora, para entendermos mais sobre viveka, gostaria de partilhar contigo duas definições gerais da palavra em Sânscrito:

 

1 – परस्परव्यावृत्त्या वस्तुस्वरूपनिश्चयः इति विवेकः, viveka é vastu-svarūpa-niścayaḥ, a determinação acerca da verdade de um objeto, paraspara-vyāvṛttyā, através da separação um do outro. Quando fazes um puzzle aplicas este método, separando as peças pelas cores e pelos formatos.

 

2 – याथार्थ्येन वस्तुस्वरूपावधारणम् इति विवेकः, viveka é vastu-svarūpa-avadhāraṇam, a determinação da natureza ou verdade de um objeto, yāthārthyena, assim como realmente ele é. Neste momento estamos a ter viveka sobre a palavra viveka, pois estamos a descobrir o que realmente significa viveka.

 

Ambas as definições são muito reveladoras. Através da primeira, entendemos que viveka é o processo pelo qual podemos separar ou distinguir duas coisas quando estas estão misturadas. A segunda indica o conhecimento conclusivo acerca da natureza real de um dado objeto. Se juntarmos estas duas belas definições vemos que viveka é o processo de distinção ou separação de duas coisas quando estas se encontram separadas e é também o resultado na forma do conhecimento conclusivo acerca de ambas as coisas que foram separadas.

 

Este discernimento de que se fala aqui é a capacidade que tu e todas as pessoas já têm e que precisa ser treinada e devidamente desenvolvida para poder ajudar na tomada de boas decisões. Para isso, aprende a separar a tua mente racional da mente emocional. Analisa se estás a pensar corretamente e verifica se as tuas emoções estão a turvar o teu discernimento. Identifica essas emoções e diz a ti mesmo que as emoções são válidas e fazem parte da tua mente emocional e que não estás mais disposto a tomar decisões baseadas nos teus rāgas e dveṣas.

 

Gostaria também de te dizer que uma das formas de aumentarmos o nosso poder de discriminação é a prece. A prece é um pedido a Īśvara, o Absoluto, por algo que queremos ver realizado. Pede a Īśvara para ter mais Viveka e para que as tuas escolhas sejam sempre um reflexo desse precioso discernimento.

 

Existem situações em que a escolha não é entre algo apropriado ou inapropriado, ou seja, não é entre o dharma e o adharma, nem tão pouco é influenciada por emoções que turvam a capacidade de decidir. Essas são situações em que a escolha ou decisão é entre algo que será melhor ou pior para ti, mas que tu no momento da decisão desconheces o resultado. Nesse caso, aprende a centrar e a seguir a tua voz interior. Por detrás da mente racional esconde-se, por vezes, um saber intuitivo sobre a melhor decisão a tomar. Esta capacidade de tomar decisões com base na intuição, ou no instinto, apesar de ser arriscada, é seguida por muitas pessoas de forma não deliberada, como por exemplo, por homens de negócios, que confiam no seu “instinto” de negociadores-

 

Estas foram algumas dicas para obtermos mais viveka no nosso dia a dia para assuntos práticos. Gostaria ainda de mencionar que viveka é uma das qualificações que qualquer aluno de vedānta precisa de desenvolver para ter sucesso no estudo, que passa por puruṣartha-niścaya, pelo discernimento do verdadeiro objetivo da vida, chamado mokṣa.

 

 

 

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A importância de japa

A importância de Japa – Texto de Paulo Vieira

 

No decorrer do estudo de Vedānta, ou até do Yoga, geralmente os alunos deparam-se com uma prática de meditação muito específica chamada “mantra-japa” ou simplesmente “japa”. Japa vem da raiz verbal “jap”, que significa dizer. Mantra-japa significa dizer um mantra. Este “dizer” poderá ser alto, murmurado ou então mental. Contudo, geralmente está implícito que esse “dizer” seja um dizer repetido, ou seja, japa significa repetir diariamente um determinado mantra por um determinado período de tempo ou então repetir um determinado número de vezes estipulado pelo professor ou pelo próprio praticante.

 

Para além de ser uma prática de meditação específica, japa é também um compromisso que a pessoa assume perante ela mesma e perante o professor, com vista a desenvolver certas características mentais importantes para o estudo de Vedānta e também para a vida.

 

Porque é necessário ou importante fazer japa, repetir um mantra? Uma das razões  é que sem esta prática específica, é muito difícil gerir os pensamentos, é muito difícil ter uma palavra a dizer sobre o fluxo mental. Como? Vamos ver.

 

Quando o praticante repete um mantra, por exemplo “oṁ īśāya namaḥ”, que significa literalmente “saudação para īśa” – (īśa é um dos nomes de Śiva e representa o Absoluto) – ele ocupará a sua mente somente com esse mantra, que será o seu pensamento deliberadamente repetido. No processo de repetição do mantra e no processo da aquisição da mestria da prática de japa, a pessoa nota, primeiramente, que a mente se distrai com muita frequência e depois aprende algo fundamental sobre a mente – a tendência natural da mente é a distração. Depois, se for um praticante atento, notará que a mente geralmente pensa os mesmos pensamentos todos os dias, portanto notará que a mente pensa pensamentos recorrentes.

 

Dentro do contexto da prática de japa, todos os pensamentos, recorrentes ou não, que não sejam o mantra, são considerados distrações e, portanto, não são para lhes darmos corda. Ou seja, se a pessoa dá conta de que se distraiu a pensar nas compras para o jantar, ou no companheiro, ou no filho, ela deverá parar de entreter esses pensamentos que saem fora do âmbito da meditação e voltar à repetição do mantra. Este processo de “voltar ao mantra” deve ser feito com muita compaixão e paciência e a pessoa não deve criticar-se negativamente por sentir dificuldade em manter a mente focada na repetição do mantra. A realidade é que nos primeiros tempos da prática, japa não é fácil e pode até ser frustrante, contudo, os resultados desta prática valem bem o esforço!

 

Assim sendo, é muito importante a prática de japa, porque a pessoa fica munida da capacidade de manter a mente focada em qualquer coisa e em qualquer altura. Esta capacidade de foco unidirecional é chamada de ekāgratā e é muito importante para o estudo de Vedānta, no qual a atenção auditiva do aluno e a disponibilidade da mente em permanecer com essa atenção é tremendamente precisa. Se esta atenção não estiver presente, haverá muitas distrações durante a aula sem que a pessoa as note, o que se traduzirá numa perda de muito conteúdo importante para o aluno.

 

Assim é porque as aulas de Vedānta seguem uma linha de comunicação construtiva e progressiva onde cada ideia comunicada é substanciada pela ideia anterior e assim sucessivamente. A aula é como um caminho que o professor faz de mão dada com o aluno, mostrando-lhe as várias nuances da vida, da humanidade e da realidade. Se a dada altura o aluno se distrai sem se aperceber, é como se ele soltasse involuntariamente a mão do professor e fosse noutra direção, perdendo de vista todas as nuances importantes para as quais o professor aponta. Com isso ele perde o fio condutor da aula e a mensagem falha o alvo, porque não encontra um recipiente válido onde ficar e isso não é desejável, obviamente. Por esta razão japa é importante.

 

Agora, se estendermos o que se passa com um aluno distraído durante a aula à vida desse aluno, facilmente entenderemos que ele terá muitas distrações. Estará a falar com alguém, mas a pensar noutra coisa, não ouvindo direito o que lhe é dito, o que causa inúmeros problemas comunicacionais. Vejam aqui e agora que japa ajuda-nos a comunicar melhor. Ajuda-nos a ouvir, ajuda-nos a estar presentes na audição.

 

Outra importância do japa é a conexão com a deidade invocada pelo mantra. Essa conexão é importante, porque a deidade ajudará a pessoa, especialmente nos momentos difíceis. As deidades são nutridas pelas ofertas e pelos mantras e em troca nutrem-nos. Por outras palavras, a repetição de um mantra traz puṇyam e esse puṇyam ajuda a pessoa a viver melhor. Isto também é desejável e importante.

 

Tenho constatado através de relatos de vários alunos iniciados por mim em mantra japa, e, claro, também pela minha própria prática pessoal de mantra, que a capacidade para ultrapassar problemas emocionais aumenta consideravelmente. Isso dá-se não só pela graça, pelo puṇyam que a pessoa ganha para si pelo seu próprio mérito, como também pela graça que é passada com a iniciação do mantra. Para além disso, algo também muito importante acontece num praticante experiente de japa – o nascimento de uma mente meditativa, o nascimento de uma mente sāttvika.

 

Numa mente assim todos os estados emocionais são acolhidos, pois quem tem uma mente assim aprendeu muito bem a observar a sua própria mente e sabe muito bem que ela é é um mero instrumento ao dispor de quem o usa, aliás, como qualquer outro instrumento. Esta mente contemplativa é um ganho muito desejável para qualquer pessoa, mas ainda mais desejável para um aluno de Vedānta e representa que o instrumento chamado mente está bem “calibrado” ou “afinado”.

 

Se a prática de japa for bem executada, com calma, perseverança, paciência, com a correta pronúncia e entoação, com a rapidez adequada, os resultados são visíveis em poucas semanas.

 

Boa prática!

 

 

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