O infinito ilimitado numa “casca de noz”

Abril 18, 2022

O infinito ilimitado numa "casca de noz"

 

Nada está separado do Infinito

Uma pergunta frequente é a seguinte: - Professor eu só consigo imaginar o infinito numa galáxia no universo. O professor consegue imaginá-lo de uma outra forma?”

 

Repara, o infinito que é espacial ou temporal não é infinito, porque o tempo e o espaço não são absolutos. O infinito transcende todos os conceitos de espacialidade ou de temporalidade. Infinito é o “lugar” não-espacial e não-temporal onde o tempo e o espaço acontecem. Esse infinito és tu, aqui presente neste preciso instante. Se o infinito existe, então nele tudo existe, incluindo o tempo e o espaço, por isso, em momento algum estás separado dele, porque nada está separado dele, incluindo tu. Esse infinito só pode estar aqui e agora.  Se está aqui e agora, és tu, porque tu estás aqui e agora. Seja lá o que for o infinito, não é espacial nem temporal.

 

 

A Verdade do Tempo não é um Intervalo de Tempo

A verdade do tempo, a realidade do tempo, não é um intervalo de tempo. A verdade do tempo é este preciso instante não medível, cuja natureza ou verdade transcende o tempo. Essa natureza é chamada Existência. A existência é o “lugar”, a verdade imutável onde o espaço e o tempo acontecem. Por outras palavras, o ser do espaço é a verdade do espaço. O ser do tempo é a verdade do tempo. O ser é a Existência, por isso pode ser chamado de Ser.

 

Qualquer objeto deste mundo, incluindo o espaço ou o tempo, são objetos do seu conhecimento. Por isso dizemos:  A caneta é. Uma árvore é. A Terra é. O Sol é. O tempo é. O espaço é. Já paraste para pensar no que é o É?! O “É” é o Ser, a Existência livre de limitações. Não há nada que não seja. Este Ser, a Existência, não é limitado pelo tempo, nem pelo espaço, porque o espaço e o tempo são. Se te perguntar: onde existe o tempo? Provavelmente nunca te fizeram esta pergunta, por isso provavelmente nunca deves ter pensado na resposta. Estará o tempo nele mesmo? Está longe do infinito? Outra pergunta é: será que o tempo pode condicionar o infinito, será que tem a capacidade de condicionar o infinito? A resposta é que o tempo existe na Existência, onde tudo existe. Quando digo “o tempo é”, isso significa que o tempo existe. O tempo depende da Existência para existir, para ser, contudo, a Existência é independente do tempo. Por isso, o tempo não tem capacidade de condicionar a Existência. Quando o tempo acabar, a Existência continuará. Jamais a Existência descontinuará de existir.

 

 

A Existência é independente de tudo, existe por Ela mesma

A Existência é independente de tudo, existe por Ela mesma. Aquilo que existe por si só, aquilo que existe sem depender de nada para existir, é a Existência. Como nada está longe ou separado da Existência, porque a Existência é ilimitada, a Existência é infinita, a Existência é o Infinito.

 

As pessoas estão habituadas a pensar no infinito em termos temporais e espaciais, contudo, o infinito em si é atemporal e não-espacial. O Infinito é o Ser, é a Existência não limitada temporalmente e não limitada espacialmente. Pensa assim, a Existência “veste-se” da roupagem chamada espaço, que está intimamente associado ao tempo, mas em si mesma é totalmente independente do tempo e do espaço, porque quando o tempo e espaço terminarem, a Existência continuará a Ser, continuará a Existir. O Ser continua a ser, quer haja ou não tempo e espaço. Então, a Existência não é temporal nem é espacial, intrinsecamente falando, portanto, é ilimitada.

 

Agora, tendo uma mente humana habituada a pensar de forma polarizada, habituada a objetivar tudo, a tendência é tentar encapsular a Existência infinita, assim como encapsulamos todos os outros objetos de cognição. Contudo, não é possível ter a cognição do Infinito ou da Existência infinita, como quiseres chamar, da mesma forma que encapsulas uma caneta na tua mente. Se pensares em caneta, uma forma mental da caneta surge na tua mente. Isso é encapsular a caneta, é objetivar a caneta. O Infinito, como não é um objeto da perceção dos sentidos, não pode ser objetivado pela tua mente como um objeto, por isso não pode ser encapsulado. A tendência de o imaginar deve ser abandonada pois é infrutífera.

 

Ao tentar imaginar o infinito em termos temporais, a mente, sendo vítima da sua polaridade, vai imaginar tudo o que passou e tudo o que virá a ser. Como a imaginação é limitada, a imaginação do infinito será limitada, será finita, será uma mera aproximação infinitamente distante daquilo que é o infinito realmente. Em termos espaciais o mesmo acontece.

 

Se se condiciona o Infinito por tudo o que foi para trás e por tudo o que será para a frente, espacialmente e temporalmente, estamos a dimensionar o infinito e isso é retirar-lhe a infinitude. Por natureza o Infinito é o Absoluto, aquele que é um sem um segundo. Esse Absoluto é o que tu és. Ganhar esta visão: Eu sou o Absoluto - é o objetivo do estudo Vedānta.

 

Então, eu não imagino o Infinito porque nunca o conseguirei fazer, nem nenhum ser humano o conseguirá fazer, pelas razões acima apresentadas. Agora, eu sei que eu sou o Infinito Absoluto, eu sei que sou a Existência infinita que permeia todas as coisas, da qual todas as coisas dependem para existir. Eu sei que transcendo este corpo-mente e sei que transcendo todos os corpos, porque sendo eu Existência infinita, transcendo o tempo, transcendo o espaço e tudo o que neles os dois acontece. Por esta razão, também não existe a ideia de localização interna do Eu aqui dentro deste corpo. Tu és Existência infinita, tu não estás localizado num ponto temporal-espacial. Por outro lado, todos os pontos temporais-espaciais estão localizados em ti, Existência.

 

Agora darei um exemplo que ilustra bem o que acabei de mencionar. Estou sentado na praia e vejo uma onda a rebentar na areia. E pergunto: o que é mais verdadeiro, a onda ou o oceano? Para entender a resposta primeiro é necessário entender que a onda não existe sem o oceano. A onda nada mais é do que uma forma que o oceano manifesta. Portanto, a resposta mais verdadeira é o oceano. Porquê? Porque a onda é uma consequência ou produto do oceano, porque o oceano é a causa da onda. Certo? Agora a pergunta é outra e convida a ir mais fundo na análise: quando olho para a onda e para o oceano, vejo a água; o que é mais verdadeiro, a onda, o oceano ou a água? A resposta certa é água. Porquê? Porque onda e oceano são formas da água, são formas que a água assume. A água está na forma de onda e na forma de oceano. A água assume várias formas, pode ser gelo, neve, gota, vapor de água, nuvem, rio, etc. Mas, a verdade de todas as formas de água é a água. Só há uma verdade, a água, presente em todas as formas de água, manifesta como todas as formas de água.

 

Quando pergunto onde está o oceano, a resposta é: ele existe na água, porque é feito de água. Posso então dizer que, no exemplo, a verdade ou o ser do oceano é a água e posso dizer que a água é o ser de todas as formas de água. Todas as formas de água têm o seu ser na água, porque na realidade são água. A água que é sem forma, assume todas as formas, existe sem uma forma específica, contudo, pode ser todas as formas, tem potencial para ser todas as formas.

 

Quando se pergunta à onda que descobriu que é o oceano e que, acima de tudo, também descobriu que é água, onde está localizada, a onda responderá de várias formas. Como onda, está em dada parte do oceano, viajando nele. Como água, é o oceano inteiro, por isso está em todo lado. Se a onda se vê como na realidade é, portanto, se se vê como água, então ela não dirá que está localizada numa dada parte do oceano ou em si mesma. Ela dirá que está por todo lado.

 

Este é o exemplo. Agora há que entender o exemplificado – a Existência, o Infinito. Assim como a água, a Existência transcende todas as formas. Tempo e espaço existem na Existência, são formas da Existência e a Existência é a verdade de ambos, porque ambos não existem sem a Existência. Podemos ver o espaço como o vasto oceano e podemos ver o tempo como a deslocação que uma onda demora a percorrer certa distância do oceano. Então, assim como o oceano e a onda não têm realidade absoluta, porque a realidade deles é a água, da mesma forma, o tempo e o espaço não têm realidade absoluta, porque a realidade deles é a Existência. Assim como a água não tem forma e nesse sentido não é um objeto, também a Existência infinita, não tendo forma, não é um dado objeto sensorial. Não sendo um objeto sensorial não pode ser imaginada, não pode ser encapsulada pela mente. Contudo, pode ser apreciada em todos os objetos, porque todos os objetos são existentes.

 

A mente só imagina objetos, só imagina formas, sejam elas visuais, sonoras, linguísticas, matemáticas, etc. Tudo neste mundo, à exceção da Existência, é objeto do pensamento. A Existência infinita que tudo transcende, que transcende todas as formas, é o Eu, Consciência. Este é o conhecimento do Eu Ilimitado revelado pelo Vedānta. Por isso é que o Vedānta é um pramāṇa, meio de conhecimento, que revela a realidade ou verdade do Eu, que como não é um objeto dos sentidos não está disponível para ser conhecido por outros meios de conhecimento.

 

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